O que virou da Blogosfera profissional?

Em 2008, Gisele Honscha fez uma pesquisa com 52 dos TOP 100 do BlogBlogs  com objetivo de identificar a profissionalização dos blogs brasileiros. Resultado: a profissionalização era apenas uma sugestão e blogueiro profissional poderia ser quem ganhava dinheiro com a veiculação de publicidade assim como quem buscava reputação. O fato é que, naquela época, somente 10 dos 55 tops da blogosfera nacional se consideravam blogueiros profissionais. A sensação é de que até hoje a identidade é nebulosa. Afinal, o que é ser problogger?

A pesquisadora não aprofundou no histórico da publicidade (pena!), mas pincelou alguns fragmentos de quem foi atrás do passado. Entre as informações estão o primeiro contrato publicitário, em 1994, com a revista HotWired, da Wired Magazine; o primeiro blogueiro profissional no Brasil surgiu em 2003: um jornalista com cinco mil visitantes únicos, Nelito Fernandes, e uma renda de R$ 1570,17. Dois anos depois surgia o tecnólogo Carlos Cardoso que em novembro de 2006 publicou sua renda no seu blog, seguido pelo blog Andersauro que em 2008 diz que ganhou R$ 6.492,90 sinalizando a parceria existente entre o Mercado Livre e os probloggers. Dois destaques válidos: audiências citadas acima de 4 mil visitas/dia e renda financeira para tecnólogos e jornalistas. Detalhe: há oito anos.

Vale lembrar-se da adolescência da blogosfera, citada nas pesquisas anteriores, diante da infância do profissionalismo blogueiro. Pitaco de quem viveu no meio do furacão das manchetes sobre macacos, monetização, celebridades, blogcamp e geladeiras, o indício de profissionalismo mesmo nascia em 2008. Ou seja, só há três anos.

Gisele ainda observou que perfil de problogger é gente da área de comunicação ou tecnologia. A maioria dos TOP100 era paulista, macho e jovem (20 a 29 anos – 47%) seguido de adultos (30 a 39 anos – 22%). Outra peculiaridade que definia os probloggers naquela época é domínio próprio. Ou seja, blogueiro de verdade mesmo não usa plataforma gratuita nem design dos outros. Parece até que pra virar blogueiro, a regra é ter custo de hospedagem e um bom logotipo. Assim muitas histórias tornam-se as mesmas e seguem o típico roteiro de celebridades: “eu comecei de brincadeira só pra pagar os custos do meu blog, mas aí…”

Aí a galera começou a ensinar, disseminar e incentivar os outros a se “profissionalizarem” para monetizar blogs. Por isso, talvez, o senso comum seja de que problogger é quem ganha dinheiro com blog. Gisele ensina que a publicidade é somente um dos meios para ganhar money com blogs. Outros seriam oferecer consultoria, prestação de serviço ou reputação de blogueiro que o coloca em cima do palco.

Aprendi que publicitários reconhecem muitas ações feitas na blogosfera. Entre elas estão propaganda, merchandising, patrocínio, relações públicas, branding. Mas, na prática, os blogs eram financiados por veiculação de banners e links patrocinados. O publieditorial já existia, mas a pesquisa não avalia quanto o post pago representava da renda do blogueiro. Outra novidade é que a escala do CPM não era o único critério da publicidade que também paga de acordo com o tempo de exibição do anúncio.

A leitura da pesquisa de Gisele foi válida por uma razão: a metodologia adotada e a experiência que teve nos camps da vida na tentativa de fazer uma conversa coletiva. Pra quem deseja pesquisar a blogosfera e adotou a etnografia como método vale bisbilhotá-la.  Minha sensação é de que a biografia foi focada nos hits americanos como Wikinomics, Freeconomics e Long Tail, o que contribui acreditar no potencial econômico da cultura participativa.

Foi justamente babando por quem profetizava esses autores ou gritavam contra qualquer tipo de controle ou hierarquia nos cantinhos dos camps que me tornei cega para os oligopólios midiáticos, para o desenvolvimento de software baseado no regime da escassez e para a tradição do controle acadêmico na produção de conteúdo. Vale a leitura de Augusto Campos da semana passada para trazer o outro lado da história, além de Muniz Sodré e Santaella. Fiquei curiosa pra saber o que está por trás do reinado de Lessig e conclui de novo que nicho ainda é bicho que não dá certo. Ética continua, pra mim, sendo a fonte principal de conhecimento para entender mídias sociais. Bom pro povo da academia.

Publicado em Mídia Social, Publicidade, Teses | 1 Comentário

Blogs: um olhar sonolento

Depois de quase três anos de retiro, volto devagarinho a olhar os blogs. Nunca os abandonei por completo, mas deixei de observar o fenômeno, de participar da comunidade e de utilizá-lo de forma estratégica. Desde 2009 mergulhei na academia e fechei os olhos para as práticas das chamadas mídias sociais. Ainda sonolenta, resolvi entender o que dizem nossos especialistas?

Comecei pela velha listinha de Raquel Recuero… De cara detectei que o pioneirismo pela investigação do tema veio das mulheres, no entanto, quem sobe mais ao palco são eles. Você tem razão…Eu ando mesmo exagerada com essa questão de gênero. Mas não é por acaso: durante meu retiro, encontrei uma dissertação que mostrava que mais de 80% do ranking brasileiro de blogs de 2008 era feito por homens, cuja média de audiência diária era acima de 10 mil visitas. Não achei o link entre meus favoritos, mas a colaborativa Aninha Brambilla confirma essa predominância global: 2/3 da blogosfera é feita por macho. E daí? Ué, esqueceu daquele papo de teia, cauda longa, audiência?

Apesar da constatação, optei por começar pelos meninos. Li Malini e Primo, mas só artigos. Recomendo muito o histórico feito por Malini porque nos traz a compreensão da diversidade dos blogs. Não é só uma questão de o termo blog designar ferramenta, texto e espaço como diz Primo, mas da complexidade histórica. Ou seja, são os fatos que vão complexificando e hibridizando (existem esses verbos?!?) as tecnologias como o blog.

Foi em 1997 que Jorn Barger começou a hiperlinkar páginas interessantes no Robot Wisdom, mas só dois anos depois (1999) que Peter Merholz criou o blogar, o blogueiro e o blog a partir da expressão We blog e também nasceu a plataforma Blogger. Ou seja, 12 anos de ferramenta e expressão contra 14 de post-link. Malini ao descrever esse histórico, no seu artigo,  destaca algo válido de registro e negrito: surgiu a lei blogueiro linka blogueiro no nascer do post-link.

A mistura mesmo veio com a prática. Foi em 2001,  com o atentado do 11 de setembro, que os blogs ganharam função de mídia, trazendo tudo aquilo que a imprensa não cobria. Foi neste ano também que Willian Quick batizava o fenômeno de blogosfera. É interessante ler e entender os impactos da geração de <<blogs guerra>> (MALINI). Esse artigo, aliás, nos dá o gostinho de quero mais. Quero saber quem investigou e pesquisou o histórico da nossa blogosfera? Please, algum link válido de registro e negrito?

Da leitura dos artigos de Primo destaco a linha do reflexivo, autoreflexivo e informativo. Quando a gente mistura as leituras fica com a sensação de que a tipologia proposta por Primo segue a história da blogosfera, que começou informativa ( linkando aquilo que é relevante para seu grupo) – ou fazendo mesmo um clipping – e tornou-se reflexiva a partir da distribuição da ferramenta gratuita. Interessante perceber a necessidade de defesa de que blogs não são diários. Talvez isso seja resultado da confusão de alguns pesquisadores relevantes, que afirmaram isso no começo da brincadeira.

Ter ciência da prática da reflexão no uso da ferramenta me faz viajar nas mudanças do jornalismo, que adota uma técnica bastante informativa pra deixar o texto com a cara de mercadoria. Muita gente pesquisou essa relação, mas não sei quem mergulhou fundo no impacto dessas narrativas, alguma dica?

Referências bibliográficas:

  1. Por uma genealogia da Blogsfera: considerações Históricas (1997 a 2001)
  2. Blogs e seus gêneros: Avaliação estatística dos 50 blogs mais populares em língua portuguesa
  3. A cultura blog: questões introdutórias
  4. Os blogs não são diários pessoais online: matriz para tipificação da blogosfera

 

Publicado em Mídia Social, Teses | Com a tag , , , , , , | 5 Comentários

Quando VOCÊ se vende

Pode ser só impressão minha. Faz séculos (desde 2008) que não acompanho os probloggers. Mas o fato é que, apesar da proliferação de especialistas em mídias sociais, nada mudou. A sensação é de que as tais agências digitais, e especializadas, só fazem o mesmo. E, detalhe: um mesmo bem mais velho que a internet. Eu me refiro às empresas que vendem audiência aos seus clientes, através do “relacionamento e know how” com os probloggers e os outros.

É sensação minha ou elas continuam só comprando conteúdo e dando jabá? Ou seja, adotando práticas antigas do marketing e do jornalismo para tratar de novos personagens. Calma! Antes de você ficar revoltadinho (a), eu não estou aqui pra dizer que é feio ou errado o que fazem. Só alerto que não servem para todos, principalmente, aos que nem sabem o que e problogger. Uma pena que os tais especialistas não tenham criatividade suficiente para inovar ou não tenham adotado convenções comerciais mais aceitas como venda de espaços publicitários no formato de publicidade ou patrocínio.

Uma pena, mas feio mesmo é a falta de reação. Não sei se algum problogger reclama desses absurdos. Se sim, é preciso gritar mais alto. Senão, pergunto: você tem idéia do que faz quando se vende?

Pergunto isso porque imagino que você ao fazer o tal publieditorial, por dezenas ou centenas de reais, imagina que seja um ato tão pessoal que nem pensa no bem comum. A decisão parece simples: a marca tem credibilidade, o produto é bom, tem a ver com meu público, então, ok: dá lhe post! Se for jaba, então, como não rola dinheiro, a consciência fica ainda mais tranquila.

Não precisa parar, respirar e pensar que você está vendendo a sua opinião quando escreve sobre um produto. Se você parar, respirar e pensar, pode ate concluir o obvio: todos escrevem sobre o consumo, inclusive você: quantas vezes já falou de produtos ou serviços no seu blog sem ter ganhado nenhum tostão? Hello!!

Parece que dá pra separar, mas não dá. Essa prática de comprar conteúdo é velha e bastante diferente de um anúncio. Quem vive de jornalismo há muito tempo sabe o quanto essa prática, historicamente, foi feita para enganar o outro. Inclusive os próprios jornalistas. Eu, por exemplo, não tenho idéia de quantas vezes fui usada para escrever matéria encomendada onde alguém ganhava milhares de reais, enquanto eu achava que estava fazendo o meu trabalho.

Tudo bem, você pode se justificar que, pelo menos, no publieditorial, o blogueiro não é enganado pelos pauteiros. Verdade, mas alguém continua ganhando muito mais que você e, detalhe, você nem percebe essa exploração. Conheço gente que ainda enxerga nessa relação uma vantagem. Será pura alienação ou  falta de valor mesmo?

Vale ressaltar que, no jornalismo, existem os tais editoriais corporativos, cuja encomenda é a mais clara o possível, mas ás vezes, você nem precisa assinar a matéria (uhu!!). Você também vai ganhar migalhas, mas a diferença é que o dono daquele papel ou daquela URL não é você. E isso conta muito. Na verdade, muda tudo.

Nenhum blogueiro consegue sobreviver com as migalhas do publieditorial a não ser que seu blog seja um depositório de publieditoriais, o que já existe e muito. Imagino que não seja seu caso. Portanto, pergunto: já parou para pensar e respirar a serviço do quê ganha migalhas? Por acaso, consegue relacionar seu ato tão pessoal ao movimento de oligopólios globais e desigualdade social? Não?

Pare, respire, pense e responda: quando você se vende, quanto ganha o menininho que te convence a escrever um publieditorial, o CARA que gerencia os menininhos, o diretor que trabalha com o CARA, o dono da agência e…o cliente? Todos eles ganham, no mínimo, dinheiro e reputação. Enquanto você ganha migalhas para vender a sua opinião. Detalhe: uma opinião que vende consumo.

Agora, responda-me: porquê você não luta para discernir a publicidade do seu conteúdo? Um anúncio te dará as mesmas migalhas, mas pelo menos você não terá sua opinião exposta. Ou melhor, vendida.

E mais: as agências, enfim, farão o mesmo que no passado. Mas, pelo menos, vão adotar uma prática mais comum do mercado, e mais resolvida que jabá e venda de conteúdo. Vão ter de colocar anúncio no seu blog.

PS: pra fechar, vale lembrar que jabá pra jornalista não vem com recadinho: escreva sobre o produto. Para blogueiro, vem, e detalhe: muitas vezes, subentendido. Uma vergonha!

Publicado em Empresas, Mídia Social, Publicidade | Deixe um comentário

#desafiodigital@ICFJ

Faço o curso Ferramentas Digitais para o Jornalismo de Interesse Público, da ICFJ, há duas semanas e tenho uma missão com mais oito profissionais: elaborar uma pauta junto com nossos seguidores do Twitter sobre política. Nosso ponto de partida é questionar o pós-tragédia das chuvas. Ou seja, qual seria a pauta ideal para dar continuidade à mobilização social em torno das chuvas. O que ainda precisa ser informado, denunciado, discutido, trazido à tona pela mídia. E, o mais complexo: como essa informação deve ser transmitida pelo meio digital.

A missão é quase impossível. Temos só até amanhã, 26 de janeiro (DEADLINE!!!), para entregar a pauta. Somos nove tuiteiros: (@ceila, @cirdes, @bundesnise, @cintialb, @gabirmaciel – em breve cito os demais profissionais) e nossa contrapartida é compartihar um pouco o que estamos aprendendo com quem nos ajudar neste desafio. Ou seja, vamos falar das ferramentas, indicar os links e até a bibliografia que tivemos a oportunidade de conhecer. Confesso que o que podemos partilhar junto nessa conversa tem sido um baita aprendizado pra mim e acho que poderá ajudar muito você também. Então,  bora conversar, no Twitter, sobre como deve ser a melhor pauta para o pós-tragédia das chuvas?

—————————————————

Segundo round do #desafio digital

Os nove tuiteiros ainda não entraram em ação, mas por outro lado tivemos o prazo estendido para entrega do trabalho no dia 29 de janeiro. O @cirdes tem questionado os seguidores sobre a ação das prefeituras de Teresopolis, Petropólis e Nova Friburgo, comparando com o que passou em Santa Catarina em 2008. Para acompanhá-lo melhor e interagir com ele, conheça o ponto de partida dele aqui.

A @gabirmaciel está de olho no papel das entidades filantrópicas, ONGs, enfim, no terceiro setor e ainda traz na bagagem o olhar para a experiência de São Luis do Paratininga. Você pode contribuir trazendo exemplos, além dos vários que ela já postou no twitter.  Indicar as instituições que estão agindo para a reconstrução das cidades também é válido assim como personagens já que a Gabi tem um dos melhores blogs para contar histórias de vida.

Já a @cintialb pensa nos dados relevantes assim como na sua apresentação. Foi ela quem indicou o contas abertas, que tem essa tabela disponível (horroroso o formato, né? então, eu pergunto como melhorá-lo). A @bundesnise ainda não começou a agir no Twitter, mas ela terá o papel de olhar para aquilo que deu certo no passado. Medidas de governo ou ações da sociedade que resultaram em melhorias no Vale do Itajai, que passou por aquela tragédia em 2008.

Eu (@ceila) já questiono mais como vamos apresentar tudo isso neste meio digital, seguindo a premissa de que aqui dá pra interagir, participar, colaborar. Então, o que me preocupa é como integrar toda essa informação permitindo que o “leitor” seja protagonista do processo. Por isso, conversei muito sobre o uso das possibilidades da web com meus seguidores e conclui que falta interatividade no ótimo infográfico do Estadão, que traz a perspectiva histórica. Pra mim, o jornalismo digital tem de inovar no ato de reciclar, complementar, indicar e colaborar. Podia ser enviado para os autores do infográfico, um link com informações de como o público pode reivindicar as promessas não cumpridas. Será que eles publicariam? Esse é um pouco o meu olhar para a pauta ideal do pós-tragédia.

É a pauta que não tem lugar ou endereço estabelecido, mas que desenvolve a partir da teia da web. É a pauta que não copia nem faz o mesmo, mas integra, colabora, complementa com o que já tem e é bem feito. A tag #projetoenchentes, por exemplo, tem de ser divulgada e inserida no #desafiodigital como o canal de comunicação no Twitter. Podemos também usar o mapa do #projetoenchentes escrevendo um texto de como usá-lo já que, para mim, ainda é muito complicado entender o que esses mapas estão falando. Enfim, o #desafiodigital continua e você já tem algum pitaco para dar?

Publicado em Jornalismo, Mídia Social, Sistemas | Com a tag , , , , , | 7 Comentários

Muniz Sodré às escuras

Só agora, depois da entrega do artigo, começo a perceber o quanto ainda continuo cega ao conceito da midiatização ou tecnocultura escrito por Sodré, em 1996. Vale lembrar que a época retrata o começo do jornalismo digital. Ou seja, quase três décadas após a descoberta da Arpanet.

Sodré me ensinou a importância de colocar cada macaco no seu galho. Ou seja, comunicação é diferente de jornalismo assim como o reflexo das mudanças. São aquelas velhas coisas óbvias que você engole sem digerir e, só depois da confusão na prática, você volta em busca dos significados. Agora, encaro a comunicação como ação e o jornalismo como uma das práticas dessa ação. Isso faz uma diferença enorme.

Sodré me instigou a conhecer o diálogo platônico Górgias (http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/gorgias.pdf) e fiquei TO-TAL-MEN-TE deslumbrada. Agora acho que tudo pode ser relacionado à questão da retórica e, neste momento, o jornalismo é percebido como a grande retórica que tinha a função de adular, de enganar, principalmente, aos mais ignorantes. E, a partir deste contexto, a questão da agenda coletiva faz todo sentido mesmo diante do meio não-massivo e interacional da internet.

O principal legado de Sodré é o conceito de bios midiático. No entanto, a leitura que fiz até o momento foi do livro Reinventando @ Cultura, que me parece o começo da trajetória para chegar ao conceito bios midiático. Agora fica claro somente a relação que Sodré faz do presente com o pensamento de Aristóteles. Apesar do conceito ainda não ter sido definido no livro lido, a midiatização soa agora como uma realidade. Ou seja, a busca desta prática é por um real e não pela verdade. Poderia dizer, então, que a ilusão é o real dos sujeitos midiatizados?

Publicado em Fragmentos, Mídia Social, Teses | Com a tag , , , | Deixe um comentário

O que queremos mesmo dizer com a comunicação e a tecnocultura?

Resolvi começar os tais fichamentos das leituras diante do desafio maluco de elaborar o artigo científico final da especialização. Segue abaixo o primeiro capítulo do livro Reinventando @ cutura, a comunicação e seus produtos, escrito, no ano de 1996, pelo baiano/carioca Muniz Sodré.

1. É necessário definir comunicação diante das confusões sobre o conceito. Sodré conceitua comunicação como uma ação social. Essa ação é feita entre sujeitos. Portanto, traz a alteridade, a diferença entre indivíduos. Essa diferença pode ser avaliada pelos recursos da atração, mediação e vinculação. A ação é praticada por meio da linguagem que resulta em um discurso. Sem discurso não existe linguagem:

Este (o discurso), enquanto estratégia interlocutória do sujeito social, é o fundamento ontológico existencial da linguagem, a prática que a recorta ou organiza no empenho da compreensibilidade, suscitando a participação simbólica dos indivíduos (SODRÉ, 1996, p.12

2. Sodré reforça que onde quer que se encontrem estruturas comuns para as diferenças faz-se presente o laço atrativo, ou comunicativo. É, neste momento, que ele começa a trazer exemplos da Antiguidade e destaco dois deles: em Cícero, communicatio era sinônimo de sociedade ou participação social e, na democracia grega, o laço essencial podia ser concebido como filia (amizade política), condição de harmonia consensual de interesses políticos (eunomia). Filia era entendido como força aproximativa dos elementos, contraposto a luta. Vale ressaltar que, antes de Platão, filia reconhece se por critérios objetivos (sociais e políticos)

3. O embate entre a retórica e a dialética, no século V, aponta a questão moderna da comunicação que, segundo Sodré, consiste na articulação da essência da linguagem com as idéias (cultura) e, por outro, na busca dos meios de revelação e transmissão da verdade. A retórica é a técnica de comunicação inventada no século V que consiste em persuadir os cidadãos. É uma técnica do discurso. Com isso, a filia passa a ser reconhecida por critérios subjetivos ou afetivos. O objeto de disputa é a atração social e quem a disputa são os praticantes da retórica contra os da dialética. Sodré explica que a dialética é a técnica do pensar comum em busca da verdade. Trata-se aí não mais de convencer a qualquer custo, mas de formar almas pelo discurso, para integrar o cidadão na polis.(SODRÉ, 1996: p.14)

4. Platão condena a retórica porque ela busca o poder ao invés da verdade e representa a crença ao invés do saber. No entanto, ele admite que não se atinge o saber sem os recursos retóricos. Sodré explica que este embate traz para a comunicação uma discussão contemporânea sobre o que é comunicação verdadeira e comunicação enganosa:

Da argumentação platônica, o Ocidente incorporou a idéia de que a cultura (obtida pelos laços comunicativos da dialética filosófica) é o meio de se fornecer à vida social os objetos retos, justos e belos. Aos sofistas, reserva-se o mundo das crenças apaixonadas e das aparências, como a esfera do não-sério, do jogo  (paidia em vez de Paidéia) SODRÉ, 1996.

5. O pensamento platônico ( dialética X retórica) permite não limitar o fenômeno da comunicação a função ou necessidade, mas de levar em consideração a totalidade das relações explícitas e implícitas do homem. A comunicação não é feita somente entre eu e tu, envolve mais elementos. Ou seja, a base da comunicação vai além do eu e tu (emissor e receptor). Sodré diz: isto é, uma verdade ou uma ordem racional da relação comunicativa, guiada por uma transcendência. EM TODO DIALOGO A GENTE É TRÊS.

6. Diversas perspectivas trazem essa descrição fora do campo da comunicação. As fenomenológicas dizem que a comunicação é uma relação recíproca entre consciências comprometidas numa situação presente. A relação entre as consciências é garantida pela comunicabilidade de sentido. Scheler diz que acima da consciência individual há a força da comunidade espiritual como fundamento de qualquer ato reflexivo e comunicativo. Jaspers diz que é necessária a comunicação verdadeira porque não há compreensão devido a falta de valores (ética), e da consciência de si. A comunicação iniciática (grega, arcaica) seria a base para que a consciência chegue a consciência em si.

No pensamento de Jaspers, a comunicação que se estabelece de uma existência para outra utiliza todas as significações e valores impessoais apenas como intermediários. Uma existência entrega à outra, fraternalmente, seus meios e suas armas, para fazer emergir a certeza do ser verdadeiro na comunicação, onde liberdade e liberdade encaram se, opõem se sem qualquer segunda intenção, porque estão unidas. Comunicação é combate e amor, a fórmula jasperiana é algo como eu me liberto enquanto eu me comunico. (SODRÉ, 1996, pp.19)

7. Para Heidegger, a essência do ente humano é o daisen. E não a consciência e o sujeito como para Jaspers. Comunicação é a partilha no discurso da disposição e da compreensão enquanto modalidades temporais da existência, que constituem a abertura do ser no mundo. A comunicação verdadeira questiona a relação do eu com seu outro –o outro além do ente, o ser, na direção de uma essencial abertura. Já Habermas associa a comunicação à ética. As formas tradicionais da sociabilidade por dispositivos modernizantes orientados por valores instrumentais. A ética em favor de uma lógica de sistemas ( controle e lucro), o que levariam sujeitos a orientarem suas ações sociais na base de um sentido comunitariamente partilhado. Conclui-se que o homem não é, entretanto, dono por inteiro do que diz porque não domina sua casualidade interna.

8. A tecnologia traz problemas para as formas de discurso. Sodré afirma que o discurso realizado com as mediações tecnológicas integra produção e consumo, portanto, é regido pela acumulação do capital em escala global (indústria cultural/comunicação de massa). No entanto, não se trata apenas de relacionar informação com mercadoria. Não é um determinismo econômico, mas de dimensão ideológica.

9. Existe um novo espaço-tempo da era tecnológica. Sodré diz que as distâncias desaparecem e transformam-se em modelos de percepção de espaço, representado pela instantaneidade. (Um tempo instantâneo, de alta velocidade, que situa-se no futuro. Ou um tempo que se torna um espaço instantâneo?) O que já se chamou de dessublimação das forças produtivas. Isso implica na prática uma operacionalização das trocas sociais sob a égide do signo, o que equivale a uma espécie de espetacularização da vida social. (SODRÉ, 1996, p. 23) Sodré compara as formas de discurso da sociedade do espetáculo com a arte retórica, concebida pelos sofistas e sistematizada por Aristóteles. As imagens das novas tecnologias são como a kolakeia, que enganava os sofistas na Grécia. Todo esse processo, segundo Sodré, é explicado pela teoria clássica da representação. Representar é o fenômeno em que o sujeito delega a um outro (o representante, o signo) o poder de interpretá-lo em sua ausência (SODRÉ, 1996, P. 23)

10. Sodré diz que a teoria da representação permitiu a criação do modelo linear da comunicação ( emissor-mensagem-receptor), que passa desde as teorias clássicas da língua até as mais populares da comunicação, que abrange a mass-media. Ou seja, há seis décadas. O modelo mecanicista trouxe avanços como de Laswell que permitiu especializar os estudos em campos da produção (emissor), da audiência (receptor), da análise de conteúdo (mensagem) e até mesmo do canal (ruídos). A circularidade totalizante substitui a linearidade da máquina, e a ação impõe-se na atividade da pesquisa.

11. A nova metafísica da comunicação é tudo se comunica. Sob esse prisma, diversos teóricos analisam a comunicação descrevendo a como mediações expressivas. Sodré critica tais teóricos baseado em Vattimo, dizendo que eles não consideram a historicidade dos valores e, portanto, sustenta o ideal de um sujeito transparente, plenamente autoconsciente. Outro senso comum entre esses teóricos é trabalhar com a hipótese de um bom uso ou de uma social democracia. Entre eles estão Hans Magnus Enzensberger, para quem os meios de comunicação inscrevem-se na dialética das forças produtivas, Jesus Martin Barbero (que se dedica aos estudos de recepção de mensagens mediáticas) e Armand Mattelart. Por outro lado, Sodré reconhece que esses teóricos (concepções expressivas da comunicação) têm o mérito de reconhecer a mediatização: Na sociedade mediatizada, as instituições, as práticas sociais e culturais articulam-se diretamente com os meios de comunicação, de tal maneira que a mídia se torna progressivamente o lugar por excelência da produção social do sentido, modificando a ontologia tradicional dos fatos. (SODRÉ, 1996, p. 28)

12. Nos anos 70 e 80, a sociedade mediatizada foi analisada sob uma ótica catastrófica no sentido de ruptura com conceito universalista e subjetivista do Ocidente. Teóricos como Foucault, Deleuze, Barthes contribuíram para colocar um fim no determinismo econômico, que sustentava o conceito idealista do homem e excluía a sua questão de identidade como sujeito assim como o papel da linguagem. Agora, a economia assim como a linguagem influencia as relações sociais. Ou seja, acabou a era de que tudo é em função da economia. Realçou-se assim a força da linguagem como mecanismo simbólico –ou seja, produção do sentido e dos sujeitos com ele articulados – determinante, ao lado da economia, de relações implicadas nos processos de produção e reprodução sociais. ( SODRÉ, 1996, p. 28) Esse é o pensamento pós-moderno.

13. Sodré afirma que Baudrillard com seu olhar radical diante do pensamento pós-moderno trata a comunicação como um lugar interativo onde a massa não é um ser, mas um buraco negro que se relaciona com os demais signos. É o fim das referências simbólicas clássicas para manipulação generalizada de signos. São as relações significantes. Ou seja, retoma a frase célebre de McLuhan: o meio é a mensagem.Essa maneira particular de observar tal transição evidencia a cultura não só como formação das almas (dialética), desenvolvimento das potencialidades ou articulação da verdade. Cultura passa a ser também uma estratégia circulatória do sistema de mercadorias e de um tipo de liberalismo econômico caracterizado pela maior velocidade de seu fluxo (capitais, mercadorias, pessoas, idéias). (SODRÉ, 1996, p. 31) Sodré conclui ainda que os meios de comunicação tornam se o meio mais visível do capitalismo transnacional, que redimensiona formas de comportamento e de percepção.

14. O pessimismo de Baudrillard, para Sodré, demonstra a chegada do poder cognitivo da imagem num mundo regido pela escrita e pela violência do capitalismo. É a era da composição semiótica. Lucien Sfez que critica Baudrillard diz que é preciso distinguir episteme de forma simbólica. A figura epistêmica, por exemplo, decompõe-se em dois pontos: imperativo tecnológico (domínio da comunicação com a tecnologia) e amplitude de tecnologias de espírito (procedimento de uso), as quais ganham um corpo próprio. Ele ainda sugere o tautismo ( repito, logo provo) e autismo (surdo e mudo) como totalidade deste sistema para retratar o fim da distância entre sujeito e objeto.

15. Sodré diz que, apesar de concordar com Sfez que critica o fato de Baudrillard tratar a dimensão epistêmica como forma simbólica, elogia o teórico por ter percebido uma função epistemológica embutida na tecnologia e na mídia. A comunicação tem fornecido bases para uma ideologia do enraizamento democrático e de uma restauração ética da sociabilidade. Sodré chama as práticas comunicativas que resultam em um trabalho cultural de tecnocultura. Ele explica que no ciberspaço, a matéria prima é uma realidade, enquanto na comunicação em massa (industrias cuturais) era entretenimento e opinião. Para Sodré, a tecnocultura não tem objetivo clássico de produzir a verdade (dialética), mas sim um real, ou seja, um novo mundo. A comunicação é ponto de convergência que exige, por exemplo, uma nova metafísica da tecnologia.

16. Sodré conclui, então, que a crise epistemológica ocorre em função do enfraquecimento das fronteiras disciplinares e sugere que a teoria indaga se sobre a possibilidade de jogos de linguagem, em que se resgate a ambivalência criativa das formas simbólicas. Não falta quem considere que as massas excluídas dos atuais modelos modernizadores guiados pelo capital transnacional sejam possivelmente mais afeitas a tais jogos que as velhas elites intelectualizadas ocidentalizadas. (SODRE, 1996, p.35)

17. As massas excluídas teriam mais chances de entrar nos jogos de linguagem porque opera uma lógica mais sofistica.  A lógica sofística assume abertamente a ilusão como via para experiência do real. A comunicação na tecnocultura pode converter se em ESPAÇO de apropriação de dispositivos semióticos e de redefinição de identidades. A razão dita iluminista tá caindo com os acontecimentos recentes. A complexidade das redes tem mais a ver com a ratio analógica do que com a dialética. A comunicação social pode ser o lugar para se desenvolver a reflexão sobre a diferença ontológica ( entre o ser e o ente). Ou seja: a integração de elementos culturais no horizonte histórico determinado dá se num âmbito de dominação ou há pontos de resistência?

18. Por último, Sodré sugere que a comunicação social é uma possibilidade de hermeutica, o que exige uma revisão das velhas técnicas de pensamento, que pode reverter como uma reinterpretação da oikeiosis (conciliação) estóica. Linhas de fuga da metafísica sugerida pelas ciberidentidades, o conhecimento platônico das formas ideiais, por efeito do sistema de informação, venha a conciliar com a ilusão sofistica.

Publicado em Jornalismo, Mídia Social, Teses | Com a tag , , , , , | Deixe um comentário

Jornalismo colaborativo tem de ser fora da redação

Hoje teve NewsCamp, no Fórum da Cultura Digital Brasileira, para desconferenciar o jornalismo colaborativo do Brasil. Ana Brambilla (Terra) e Rafael Sbarai (Veja) trouxeram suas experiências tanto acadêmicas como práticas. Ambos tiveram o OhMy News como objeto de estudo, ambos têm consciência da diversidade da web, da importância do público e conhecimento das possibilidades tecnológicas. Entusiastas e, sem dúvida nenhuma, grandes vitoriosos no jornalismo digital. São exemplos de luta para transformar a cultura de massa em processos mais colaborativos. É possível?

Eu não acredito nisso. Sorry! Pelo menos agora, definitivamente, NÃO. Pra mim, jornalismo colaborativo só se for feito fora da redação, na rua, com o público para o público, do lado do público. O desafio é que tudo isso não vira jornalismo colaborativo, senão tiver tecnologia e processos. E pra juntar público, processos e tecnologia leva “séculos”para os dias de hoje porque precisa juntar gente com o mesmo interesse. E, hoje, os interesses são muitos, diversos e difusos. Ou, extremamente pessoais. É difícil largar o próprio umbigo quando se exige paixão, garra e dedicação. Por isso, acredito que deve existir muita coisa de jornalismo colaborativo fora da redação, mas infelizmente não conheço, não faço parte e não tenho contato. Posso até ter ouvido falar, mas não caiu a ficha. Ou seja, não houve ainda a sensação de pertencimento, tão tuitado na tag newscamp de hoje.

E já que falamos de pertencimento, identidade e cultura, eu pergunto: como pertencer a grandes grupos de massa? Parece que a resposta continua a mesma: sendo audiência. Aquilo que os idealistas consideram público para um potencial “jornalismo colaborativo” dentro dos veículos de comunicação, na minha opinião, é MASSA, é tráfego, é resultado para o dono do jornal. Eu, particularmente, ainda acho que há muitas práticas – chamadas de colaborativas – que são pura exploração de mão de obra. Não é por acaso que se preocupam tanto com filtros…Quem explora precisa moderar, senão sai do controle mesmo.

Colaboração, pra mim, exige inserir o outro no processo produtivo e isso requer ( de novo) tecnologia, processos e pessoas. As redações que desejarem fazer um jornalismo colaborativo não têm de ir às redes sociais procurar conteúdo, audiência ou resultado, mas parceiro, colaborador e público. Se um dia isso acontecesse, as redações teriam de investir mais em educação, formação e cidadania. E, detalhe, muitos processos teriam de ser revistos com a inserção dos colaboradores no processo produtivo de conteúdo. Exemplo? O timing da notícia, a circulação e a distribuição.

É por isso que acredito que jornalismo colaborativo só fora da redação. Mas essa possibilidade também é uma luta que requer vitoriosos como a Aninha e o Sbarai, que acreditam na transformação humana. Mas não basta só acreditar e querer essa mudança, é preciso agir. É comum nós, brasileiros, esperarmos pela chance, a oportunidade ou deixar na mão do outro aquilo que só você poderá fazer por você. E, pra mim, o começo disso tudo é (de novo) o pertencimento. Cadê o grupo dos jornalistas empreendedores, que estão fora da redação, lutando na raça sozinho sem apoio financeiro, tentando descobrir as técnicas das ferramentas ou a formatação dos projetos? Please, preciso conhecer você!

Sensações
Cada segundo a mais me convenço de que mídias sociais AINDA são apenas técnicas ou resultados. É impressionante como a TECNOLOGIA domina tudo (affffffff). No auge dos blogueiros, o valor estava na mão de quem sabia programar, otimizar e trazer tráfego. Tive a sensação de que, na Cultura Digital, o valor está no audiovisual e também nos desenvolvedores. Porquê? Money, money, money!!!! A maioria dos editais exige inovação tecnológica, imagem ( tv digital continua aí) e ainda há a Lei da Transparência no Brasil. E as empresas continuam buscando tráfego para publicidade. Afinal, tudo é uma questão de técnica, resultado e público? Ou, público, processos e projetos? Difícil escolha…

 

Publicado em Evento, Jornalismo, Mídia Social | Com a tag , , , , | 2 Comentários

Geertz, a busca de um artigo científico!

Chegou (ufa!) a etapa final da especialização. Vamos fazer um artigo científico.  Agora (ufa!) tenho orientador e comecei a ler Geertz (Clifford). Quem? Também não tinha ouvido falar dele no curso. Ele é norte-americano (hummm, não gostei. preferia, o italiano). E a essência da sua teoria (arghhhh) é semiótica (coisa de americano).

Não sou só preconceituosa (não queria seguir o fluxo de pensamento dos States again), sou também mulher e acredito na intuição. Fazia sentido a orientação, tinha liga, mas não sabia onde e, confesso, ainda não sei, mas tem muita liga. Acabo de ler o primeiro capítulo do A Interpretação das Culturas. E resolvi pensar alto. O fichamento do primeiro capítulo já foi feito pelo Marcelo Castãneda, do Lida Diária. Então, resolvi conversar com o fichamento dele para registrar meus fragmentos.

Mas, antes, preciso desabafar os hiperlinks usados até agora. Ter a essência semiótica, por exemplo, não é só o cansativo Pierce (americano), tem também o admirado Umberto Eco (europeu). Geertz ensina no primeiro capítulo (Uma descrição densa: Por uma teoria interpretativa da Cultura) que é preciso fazer uma escolha do conceito de cultura. Ele optou pela essência semiótica, existem outras…( muita gente, inclusive Geertz no livro, citaram quais são, mas eu não lembro, não guardei, não conheço e, por isso, não tenho condições de fazer essa escolha). Então, cá estamos de novo, envolvidos com as tags: símbolos, signos, significados, significantes, ações simbólicas… E percebo que também estamos próximos da linguística, certo?

Voltando ao fichamento de Castãneda, os dois primeiros tópicos me passam a mensagem de que Geertz é contra Tylor porque o britânico é genérico demais, “o todo mais complexo” (evolucionista) e, de acordo com a interpretação de Geertz, mais confunde que esclarece. Por isso, ele defende um conceito de cultura mais limitado e, detalhe, quanto mais profundo, mais poderoso, porém, menos completo. Preciso ler Tylor para ver se concordo com Geertz?

Deu vontade, mas o inglês é descrito de forma tão miserável na wikipédia…
A visão de Geertz, entretanto, me fez pensar no recadinho que li na mesa de um restaurante vegetariano: Os que sabem não falam; os que falam não sabem. É assim que ajo para blogar. Blogo melhor, quando não sei, não entendo. Por isso, vamos em frente!

Os tópicos 3, 4 e 5 do fichamento trazem, enfim, a mensagem principal de Geertz neste capítulo: a ETNOGRAFIA. Pergunto: eu devo ser uma etnógrafa (vídeo), então, nesta trajetória para escrever o artigo científico? Gostei das funções descritas pela prática de fazer etnografia, mas QUÊ (raios) é escolher entre as estruturas de significação e determinar sua base social e sua importância? Geertz é chato, mas esclarece um pouco isso no tópico 6. Penso nos símbolos da maternidade dentro da minha experiência (objeto de estudo), mas isso é uma escolha?

Marcelo traz,  nos tópicos 7 e 8, a mosca atrás da minha orelha: eu sinto propícia a acreditar em Ward Goodenough, citado pelo Geertz como fonte de desordem teórica, porque pensa cultura a partir de estruturas psicológicas, que guiam o comportamento humano. E isso me faz pensar em arquétipos (apesar de não ter noção do conceito de arquétipos). Mas o fichamento do blog Lida diária mostra-me que a razão de Geertz descartar o termo psicológico da sua teoria é determinar uma prática minuciosa, microscópica, enfim, densa.

dizer que a cultura consiste em estruturas de significado socialmente estabelecidos é a mesma coisa que dizer que esse é um fenômeno psicológico, uma característica da mente, da personalidade, da estrutura cognitiva de alguém

Geertz, no entanto, não ensina tornar-se um nativo do lugar, mas apenas situar-se (hummmmmm, eu sou. não estou). E deixa bastante claro a missão da etnógrafa: não é para fazer terapia (ops, fudeu! eu já uso a academia para isso desde que comecei a blogar. E, agora, orientador?). A antropologia interpretativa não responde nossas questões mais profundas, mas coloca as respostas de outros no registro sobre o que o homem falou. Como Marcelo resume no seu fichamento, Geertz propõe como tarefa ao pesquisador alargar o discurso humano.

Entendo que a razão para não considerar as estruturas psicológicas seja porque o etnógrafo precisa ser minucioso, microscópico em busca do signifcado. Ou seja, se o pesquisador considera os significados estabelecidos socialmente (fenômeno psicológico) encontra as respostas comuns. E, assim, perde o significado por trás do comum. Ou seja, perde-se a oportunidade de investigar a vivência do outro (interlocutor). São nestes tópicos também que Geertz alerta para a relação entre sistematizar o discurso e relacioná-lo com as propriedades do comportamento.

precisamos medir a irrefutabilidade de nossas explicações contra  o poder da imaginação científica que nos leva ao contato com as vidas dos estranhos.

O fichamento dos tópicos 16 a 32 trazem várias questões, mas minha interpretação é do papel desse etnógrafo e seus riscos. Esse relato cheio de inferências deve ser feito dentro do contexto analisado sem deixar de relacionar com as dimensões simbólicas. Ou seja, não dá para generalizar a partir de um estudo de caso, mas dá para generalizar dentro dos casos estudados. É preciso mergulhar fundo dentro de um contexto específico, mas conseguir voltar para superfície de alguma maneira para não se perder nas profundezas da imaginação.

Geertz é extremamente semiótico, cheio de camadas para propor uma pesquisa minuciosa de um objeto de estudo cutural em busca de um significado. Ele ensina que é preciso anotar discursos, ter consciência que tal anotação trata-se de um segundo discurso e ainda propõe relacionar essas camadas com os significados buscados. Isso me faz pensar que preciso encontrar tais significados do contexto que vivencio para começar a pesquisa. Tchbummmm!

PS: esse post fica ainda mais sem sentido sem a leitura do fichamento do blog citado, que vale a pena ser inserido nos seus estudos sobre Geertz. Obrigada, Marcelo!

Publicado em Fragmentos, Teses | Com a tag , , , , , , , , , , | 3 Comentários

Rupturas da Comunicação

São 14 anos de prática e só cinco deles dedicados ao repensar. Eu já cheguei a atribuir exclusivamente à maternidade a ruptura desses cinco anos, período em que comecei a questionar: o que estou fazendo dentro dessa redação? Não há dúvida de que o processo metamorfoseante de se tornar mãe tem muito a ver com tudo isso. Hoje, porém, reconheço mais as rupturas que me rodeiam e também influenciaram, e muito, nessa minha busca interior.

Não foi só o ato de blogar que, no passado, foi tão intenso, utópico e idealista. Nem os resultados desse ato, que me levaram a encontros tão bons, duradouros, instantâneos e terríveis. Mas também o momento de agora. Não só o tal mundo plano, híbrido, global, segmentado e diversificado, mas o pânico que rodeia aqueles que trabalham e não vêem perspectiva nenhuma de futuro a não ser a prisão de ficar cada vez mais dedicado 12 horas diárias ao trabalho, sem direito a férias, décimo terceiro ou folga no fim-de-semana. Ou o otimismo intenso daqueles que como eu acreditei que havia grandes oportunidades a todos. Essa antítese maluca da convergência intensa das “realidades”, com certeza, também contribui muito para esse repensar. E agora, caipirapirapora, vai mesmo enfrentar o banco da escola?

Não vou negar que a preguicinha nacional está entre as alternativas. Melhor tirar mais uma soneca de 14 anos. Por outro lado, a fase adolescente da prática, talvez, esteja me empurrando para decifrar tantos códigos desconhecidos. Agora tudo faz mais sentido, inclusive o caos em que me encontrava e a revolta de pensar alto para todos, sem pudor nem respeito. Desabafo puro, nu e cru. Não mudei tanto… Estou aqui agindo da mesma maneira: falando alto pra mim mesma. Mas, agora, é quase um balanço. É muito mais o que passou do que um grito alto, pedindo socorro…

Sinto que as minhas rupturas fazem parte das rupturas da comunicação e, de certa forma, tive a oportunidade de confundir-me e identificar-me com grupos, os quais eu nunca pertenci e, simultaneamente, agora sinto que sou um pouco do que eles são de verdade. E, ao mesmo tempo, ainda não sei o que sou, além daquilo que eu já era: jornalista que se tornou mãe na internet e em casa, na escola, na casa da sogra, na casa da mãe, no clube, na praça…Ufa! Sim, o ser híbrido!

A resistência à Academia também não é um um fato isolado e pessoal, mas de novo, cultural. Não se trata só das regras e dinâmicas das universidades, da lógica do conhecimento ou do jeito dos mestres e doutores acadêmicos. É um caminho árduo o pensar sistematicamente, a partir de uma lógica do outro e entender que aquilo é fazer ciência, aquilo é pesquisar. Por quê raios não me disseram isso antes? E quem pode lhe garantir que não foi dito? Talvez, há 14 anos atrás ou há alguns dias, meses e anos. Pode ser que eu já sabia ou tinha idéia…mas só agora começa a ter sentido. Eu ainda não sei se vou prestar a prova de mestrado. O edital da USP já saiu e a inscrição será em outubro. Saber disso já é um avanço, mas casar teu projeto com a linha de pesquisa certa não me parece tão simples assim…

Publicado em Fragmentos, Mídia Social, Teses | Com a tag , , , , | 3 Comentários

Essa tal linha de pesquisa…Socorro!!!

Tem sido muito engraçado lidar com as minhas “certezas” que, em questão de dias, vão embora sem dizer adeus.  Quem sabe elas voltam e tenham algum sentido amanhã. Eu falo da busca pela Linha de Pesquisa, lembra? Então, pasmem, só agora – após oito meses nesse caminho - consegui falar com professor em sala de aula que deu a dica: Interfaces Sociais na Comunicação. Caiu a ficha: tenho que decidir entre as três áreas de pesquisa propostas pela USP. Parece ridículo, né! Mas são exatamente tais obviedades que retratam o desafio neste percurso.

Meu ponto de partida foi: quero pesquisar mídias digitais, internet… Motivo? Desabafo de Mãe. Eu fui várias vezes consultar o site Poseca, li todas as áreas de pesquisa e inclusive fiz aula como ouvinte de uma das disciplinas, mas não tinha consciência dessa escolha. Agora, quando alguém determina sua área é Interfaces Sociais na Comunicação, começo então a buscar a identificação com o que esses caras estão fazendo…Minha primeira atração foi Política e Estratégias de Comunicação, mas somente um único orientador tem uma linha de pesquisa dedicada a olhar para cidadania e, detalhe, não responde email. O resto tem currículos e pesquisas focados em dois mundos que não me dão tesão: mercado e governo. Confesso que, na hora, fiquei um pouco revoltada: “caralho, a galera só pesquisa o que dá dinheiro, o que tem demanda de financiamento, estratégias para políticos e empresas…” Agora, a revolta passou e deixei o bebezinho de lado para entender a razão disso. Não dá para se dedicar a ler, pesquisar, conversar, relacionar, associar – deixar seu umbigo de lado para ler o outro e a partir do outro reconhecer o que vale para o seu umbigo – sem grana. Como diz um mestre, que estou tendo a oportunidade de conhecer de perto, “livro não paga a compra do supermercado”.

O quê? Se eu desisti de tentar falar com o único orientador que estuda cidadania? NÃO. Eu só aprendi que as universidades fazem sim parte do mundo e não são tão isoladas como quem vive fora dos muros acredita. Há muita mudança em curso e eu acredito nelas. Sou idealista: acredito nas pessoas ainda, apesar de saber que a maioria delas acredita mais nas instituições, mesmo aquelas tão falidas. Mas, voltando…., a dúvida não é levar a pesquisa para onde a banda toca, mas se minha pesquisa toca mesmo na área de Políticas e Estratégias de Comunicação.

Linha de Pesquisa: Políticas e Estratégias de Comunicação

Estudos dos paradigmas e correntes teóricas da comunicação organizacional, da publicidade, das relações públicas, da editoração e do jornalismo, decorrentes das múltiplas interfaces sociais da comunicação. Nesse sentido, enfocam-se as políticas e estratégias de comunicação no setor público, privado e não-governamental, desenvolvendo a pesquisa aplicada em  comunicação administrativa, interna, institucional e mercadológica, que tem por base  tanto a perspectiva de uma filosofia da comunicação integrada quanto os princípios da ética, da responsabilidade social e da inclusão social de classes, gêneros e etnias. Estuda, ainda, a produção, emissão e recepção de mensagens institucionais e publicitárias e seus reflexos na sociedade contemporânea. Contempla, finalmente, pesquisas relativas à comunicação pública e a políticas públicas de comunicação.

Responda-me: o que quer dizer tudo isso? Eu tenho me questionado muito a razão do pertencimento e da identidade formada na rede do Desabafo de Mãe. Mesmo com site fora do ar – de novo – por problemas técnicos e money, a rede continua lá, agora muito mais forte. Agora, a comunidade começa a fazer sentido. Há consciência de que podemos ser um grupo – não que batalhe por grana de míseros centavos das CPMs das guerrilhas – mas por um ideal, por uma transformação social e, detalhe, por uma mídia coletiva, questionadora e libertadora. Isso me faz tão feliz a ponto de querer lutar MUITO MAIS. O tantãaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaao que fiz até agora foi pouco.

<desabafo mais pessoal ainda> E fizemos muito, Susuca – minha irmã de alma, colocamos um site no ar sem paitrocinio nem patrocínio, muito menos governocínio, sem conhecer Arquitetura de Informação nem as regras de jogo do desenvolvimento, CMS (eita trabalhão), sem relacionamento suficiente que chegavam até aos meninos de marketing das empresas e, detalhe, sem experiência. Tivemos muito apoio, é verdade, a hospedagem do Desabafo de Mãe só foi paga durante seis meses para Locaweb que era indicada por uma agência que cobrava mensalidade de uso do CMS desenvolvido. Depois, o site ganhou hospedagem de graça de gente idealista – Carlos Seabra, Pedro Markum e, uma cortesia de tres meses, do Gallego - mas um desafio técnico do banco de dados nos impede de ser mantido na camaradagem porque como exige muito recurso não sobrevive em servidor compartilhado. Resultado: servidor dedicado custa dinheiro e virtualização ainda não é realidade pra gente como nós - a não ser lá fora. E, pra ir para o estrangeiro, precisamos migrar de novo. Existe até camarada que migra de graça – como já fizeram dois deles, mas não dá pra virtualizar sem gestão. E gestão implica comprometimento e isso exige dedicação. Logo, precisamos de money – de novo!
PS: se houver camarada disposto a resolver desafios de banco de dados para gente se manter na hospedagem compartilhada, precisamos de vc e não temos dinheiro!

 Ufa! Como sonhos são realmente coisa de malucos… Só mesmo quem tem coragem e ousadia para seguir em frente sem as condições básicas. Agora não tem jeito: precisa-se “profissionalizar”…Tornar-se um modelo sustentável que faça sentido para uma comunidade que escreve. É, por isso, que agora leio Rousseau

…e a busca pela linha de pesquisa continua!!!

Publicado em Mídia Social, Teses | Com a tag , , , , , , , , | 6 Comentários