Resolvi começar os tais fichamentos das leituras diante do desafio maluco de elaborar o artigo científico final da especialização. Segue abaixo o primeiro capítulo do livro Reinventando @ cutura, a comunicação e seus produtos, escrito, no ano de 1996, pelo baiano/carioca Muniz Sodré.
1. É necessário definir comunicação diante das confusões sobre o conceito. Sodré conceitua comunicação como uma ação social. Essa ação é feita entre sujeitos. Portanto, traz a alteridade, a diferença entre indivíduos. Essa diferença pode ser avaliada pelos recursos da atração, mediação e vinculação. A ação é praticada por meio da linguagem que resulta em um discurso. Sem discurso não existe linguagem:
Este (o discurso), enquanto estratégia interlocutória do sujeito social, é o fundamento ontológico existencial da linguagem, a prática que a recorta ou organiza no empenho da compreensibilidade, suscitando a participação simbólica dos indivíduos (SODRÉ, 1996, p.12
2. Sodré reforça que onde quer que se encontrem estruturas comuns para as diferenças faz-se presente o laço atrativo, ou comunicativo. É, neste momento, que ele começa a trazer exemplos da Antiguidade e destaco dois deles: em Cícero, communicatio era sinônimo de sociedade ou participação social e, na democracia grega, o laço essencial podia ser concebido como filia (amizade política), condição de harmonia consensual de interesses políticos (eunomia). Filia era entendido como força aproximativa dos elementos, contraposto a luta. Vale ressaltar que, antes de Platão, filia reconhece se por critérios objetivos (sociais e políticos)
3. O embate entre a retórica e a dialética, no século V, aponta a questão moderna da comunicação que, segundo Sodré, consiste na articulação da essência da linguagem com as idéias (cultura) e, por outro, na busca dos meios de revelação e transmissão da verdade. A retórica é a técnica de comunicação inventada no século V que consiste em persuadir os cidadãos. É uma técnica do discurso. Com isso, a filia passa a ser reconhecida por critérios subjetivos ou afetivos. O objeto de disputa é a atração social e quem a disputa são os praticantes da retórica contra os da dialética. Sodré explica que a dialética é a técnica do pensar comum em busca da verdade. Trata-se aí não mais de convencer a qualquer custo, mas de formar almas pelo discurso, para integrar o cidadão na polis.(SODRÉ, 1996: p.14)
4. Platão condena a retórica porque ela busca o poder ao invés da verdade e representa a crença ao invés do saber. No entanto, ele admite que não se atinge o saber sem os recursos retóricos. Sodré explica que este embate traz para a comunicação uma discussão contemporânea sobre o que é comunicação verdadeira e comunicação enganosa:
Da argumentação platônica, o Ocidente incorporou a idéia de que a cultura (obtida pelos laços comunicativos da dialética filosófica) é o meio de se fornecer à vida social os objetos retos, justos e belos. Aos sofistas, reserva-se o mundo das crenças apaixonadas e das aparências, como a esfera do não-sério, do jogo (paidia em vez de Paidéia) SODRÉ, 1996.
5. O pensamento platônico ( dialética X retórica) permite não limitar o fenômeno da comunicação a função ou necessidade, mas de levar em consideração a totalidade das relações explícitas e implícitas do homem. A comunicação não é feita somente entre eu e tu, envolve mais elementos. Ou seja, a base da comunicação vai além do eu e tu (emissor e receptor). Sodré diz: isto é, uma verdade ou uma ordem racional da relação comunicativa, guiada por uma transcendência. EM TODO DIALOGO A GENTE É TRÊS.
6. Diversas perspectivas trazem essa descrição fora do campo da comunicação. As fenomenológicas dizem que a comunicação é uma relação recíproca entre consciências comprometidas numa situação presente. A relação entre as consciências é garantida pela comunicabilidade de sentido. Scheler diz que acima da consciência individual há a força da comunidade espiritual como fundamento de qualquer ato reflexivo e comunicativo. Jaspers diz que é necessária a comunicação verdadeira porque não há compreensão devido a falta de valores (ética), e da consciência de si. A comunicação iniciática (grega, arcaica) seria a base para que a consciência chegue a consciência em si.
No pensamento de Jaspers, a comunicação que se estabelece de uma existência para outra utiliza todas as significações e valores impessoais apenas como intermediários. Uma existência entrega à outra, fraternalmente, seus meios e suas armas, para fazer emergir a certeza do ser verdadeiro na comunicação, onde liberdade e liberdade encaram se, opõem se sem qualquer segunda intenção, porque estão unidas. Comunicação é combate e amor, a fórmula jasperiana é algo como eu me liberto enquanto eu me comunico. (SODRÉ, 1996, pp.19)
7. Para Heidegger, a essência do ente humano é o daisen. E não a consciência e o sujeito como para Jaspers. Comunicação é a partilha no discurso da disposição e da compreensão enquanto modalidades temporais da existência, que constituem a abertura do ser no mundo. A comunicação verdadeira questiona a relação do eu com seu outro –o outro além do ente, o ser, na direção de uma essencial abertura. Já Habermas associa a comunicação à ética. As formas tradicionais da sociabilidade por dispositivos modernizantes orientados por valores instrumentais. A ética em favor de uma lógica de sistemas ( controle e lucro), o que levariam sujeitos a orientarem suas ações sociais na base de um sentido comunitariamente partilhado. Conclui-se que o homem não é, entretanto, dono por inteiro do que diz porque não domina sua casualidade interna.
8. A tecnologia traz problemas para as formas de discurso. Sodré afirma que o discurso realizado com as mediações tecnológicas integra produção e consumo, portanto, é regido pela acumulação do capital em escala global (indústria cultural/comunicação de massa). No entanto, não se trata apenas de relacionar informação com mercadoria. Não é um determinismo econômico, mas de dimensão ideológica.
9. Existe um novo espaço-tempo da era tecnológica. Sodré diz que as distâncias desaparecem e transformam-se em modelos de percepção de espaço, representado pela instantaneidade. (Um tempo instantâneo, de alta velocidade, que situa-se no futuro. Ou um tempo que se torna um espaço instantâneo?) O que já se chamou de dessublimação das forças produtivas. Isso implica na prática uma operacionalização das trocas sociais sob a égide do signo, o que equivale a uma espécie de espetacularização da vida social. (SODRÉ, 1996, p. 23) Sodré compara as formas de discurso da sociedade do espetáculo com a arte retórica, concebida pelos sofistas e sistematizada por Aristóteles. As imagens das novas tecnologias são como a kolakeia, que enganava os sofistas na Grécia. Todo esse processo, segundo Sodré, é explicado pela teoria clássica da representação. Representar é o fenômeno em que o sujeito delega a um outro (o representante, o signo) o poder de interpretá-lo em sua ausência (SODRÉ, 1996, P. 23)
10. Sodré diz que a teoria da representação permitiu a criação do modelo linear da comunicação ( emissor-mensagem-receptor), que passa desde as teorias clássicas da língua até as mais populares da comunicação, que abrange a mass-media. Ou seja, há seis décadas. O modelo mecanicista trouxe avanços como de Laswell que permitiu especializar os estudos em campos da produção (emissor), da audiência (receptor), da análise de conteúdo (mensagem) e até mesmo do canal (ruídos). A circularidade totalizante substitui a linearidade da máquina, e a ação impõe-se na atividade da pesquisa.
11. A nova metafísica da comunicação é tudo se comunica. Sob esse prisma, diversos teóricos analisam a comunicação descrevendo a como mediações expressivas. Sodré critica tais teóricos baseado em Vattimo, dizendo que eles não consideram a historicidade dos valores e, portanto, sustenta o ideal de um sujeito transparente, plenamente autoconsciente. Outro senso comum entre esses teóricos é trabalhar com a hipótese de um bom uso ou de uma social democracia. Entre eles estão Hans Magnus Enzensberger, para quem os meios de comunicação inscrevem-se na dialética das forças produtivas, Jesus Martin Barbero (que se dedica aos estudos de recepção de mensagens mediáticas) e Armand Mattelart. Por outro lado, Sodré reconhece que esses teóricos (concepções expressivas da comunicação) têm o mérito de reconhecer a mediatização: Na sociedade mediatizada, as instituições, as práticas sociais e culturais articulam-se diretamente com os meios de comunicação, de tal maneira que a mídia se torna progressivamente o lugar por excelência da produção social do sentido, modificando a ontologia tradicional dos fatos. (SODRÉ, 1996, p. 28)
12. Nos anos 70 e 80, a sociedade mediatizada foi analisada sob uma ótica catastrófica no sentido de ruptura com conceito universalista e subjetivista do Ocidente. Teóricos como Foucault, Deleuze, Barthes contribuíram para colocar um fim no determinismo econômico, que sustentava o conceito idealista do homem e excluía a sua questão de identidade como sujeito assim como o papel da linguagem. Agora, a economia assim como a linguagem influencia as relações sociais. Ou seja, acabou a era de que tudo é em função da economia. Realçou-se assim a força da linguagem como mecanismo simbólico –ou seja, produção do sentido e dos sujeitos com ele articulados – determinante, ao lado da economia, de relações implicadas nos processos de produção e reprodução sociais. ( SODRÉ, 1996, p. 28) Esse é o pensamento pós-moderno.
13. Sodré afirma que Baudrillard com seu olhar radical diante do pensamento pós-moderno trata a comunicação como um lugar interativo onde a massa não é um ser, mas um buraco negro que se relaciona com os demais signos. É o fim das referências simbólicas clássicas para manipulação generalizada de signos. São as relações significantes. Ou seja, retoma a frase célebre de McLuhan: o meio é a mensagem.Essa maneira particular de observar tal transição evidencia a cultura não só como formação das almas (dialética), desenvolvimento das potencialidades ou articulação da verdade. Cultura passa a ser também uma estratégia circulatória do sistema de mercadorias e de um tipo de liberalismo econômico caracterizado pela maior velocidade de seu fluxo (capitais, mercadorias, pessoas, idéias). (SODRÉ, 1996, p. 31) Sodré conclui ainda que os meios de comunicação tornam se o meio mais visível do capitalismo transnacional, que redimensiona formas de comportamento e de percepção.
14. O pessimismo de Baudrillard, para Sodré, demonstra a chegada do poder cognitivo da imagem num mundo regido pela escrita e pela violência do capitalismo. É a era da composição semiótica. Lucien Sfez que critica Baudrillard diz que é preciso distinguir episteme de forma simbólica. A figura epistêmica, por exemplo, decompõe-se em dois pontos: imperativo tecnológico (domínio da comunicação com a tecnologia) e amplitude de tecnologias de espírito (procedimento de uso), as quais ganham um corpo próprio. Ele ainda sugere o tautismo ( repito, logo provo) e autismo (surdo e mudo) como totalidade deste sistema para retratar o fim da distância entre sujeito e objeto.
15. Sodré diz que, apesar de concordar com Sfez que critica o fato de Baudrillard tratar a dimensão epistêmica como forma simbólica, elogia o teórico por ter percebido uma função epistemológica embutida na tecnologia e na mídia. A comunicação tem fornecido bases para uma ideologia do enraizamento democrático e de uma restauração ética da sociabilidade. Sodré chama as práticas comunicativas que resultam em um trabalho cultural de tecnocultura. Ele explica que no ciberspaço, a matéria prima é uma realidade, enquanto na comunicação em massa (industrias cuturais) era entretenimento e opinião. Para Sodré, a tecnocultura não tem objetivo clássico de produzir a verdade (dialética), mas sim um real, ou seja, um novo mundo. A comunicação é ponto de convergência que exige, por exemplo, uma nova metafísica da tecnologia.
16. Sodré conclui, então, que a crise epistemológica ocorre em função do enfraquecimento das fronteiras disciplinares e sugere que a teoria indaga se sobre a possibilidade de jogos de linguagem, em que se resgate a ambivalência criativa das formas simbólicas. Não falta quem considere que as massas excluídas dos atuais modelos modernizadores guiados pelo capital transnacional sejam possivelmente mais afeitas a tais jogos que as velhas elites intelectualizadas ocidentalizadas. (SODRE, 1996, p.35)
17. As massas excluídas teriam mais chances de entrar nos jogos de linguagem porque opera uma lógica mais sofistica. A lógica sofística assume abertamente a ilusão como via para experiência do real. A comunicação na tecnocultura pode converter se em ESPAÇO de apropriação de dispositivos semióticos e de redefinição de identidades. A razão dita iluminista tá caindo com os acontecimentos recentes. A complexidade das redes tem mais a ver com a ratio analógica do que com a dialética. A comunicação social pode ser o lugar para se desenvolver a reflexão sobre a diferença ontológica ( entre o ser e o ente). Ou seja: a integração de elementos culturais no horizonte histórico determinado dá se num âmbito de dominação ou há pontos de resistência?
18. Por último, Sodré sugere que a comunicação social é uma possibilidade de hermeutica, o que exige uma revisão das velhas técnicas de pensamento, que pode reverter como uma reinterpretação da oikeiosis (conciliação) estóica. Linhas de fuga da metafísica sugerida pelas ciberidentidades, o conhecimento platônico das formas ideiais, por efeito do sistema de informação, venha a conciliar com a ilusão sofistica.