Existe uma coisa no ar que me lembra muito o “diálogo” entre Thomas More e o utopiano Rafael Hitlodeu, que tentou explicar ao diplomata More as razões pelas quais não adiantaria ele, um ser sábio e filosófico, assumir um cargo público: “Se não for possível erradicar de uma vez por todas as idéias erradas, nem lidar com os vícios que o hábito já há muito sedimentou, mesmo assim não vejo motivo para para voltar as costas à vida pública. Seria proceder com a mesma insensatez dos que abandonam o navio em meio à tempestade só porque não conseguem dominar os ventos” .
Essa foi a fala de More para Rafael, que conhecia Utopia de perto. Muito parecida com o post de Marcelo Träsel, do Martelada, ao David Coimbra, do Zero Hora, lógico que considerando o contexto de cada época e a pauta em questão ( política, em 1518 e comunicação, em 2008). Sim, vivemos mais uma vez um choque cultural, que também é muito bem retratado pelas pequenas atitudes dos donos do dinheiro, IG e Terra, e os poucos grupos da mídia tradicional citados no artigo de Juliano Spyer, publicado hoje no Webinsider.
Acabo de ler o post do Wagner, no Boombust, desabafando o susto que levou ao deparar com os blogueiros constrangidos ao falar de “viabilidade de negócio” (monetização) aos jornalistas da Editora Globo, durante um evento fechado realizado pela Organizações Globo, e percebo o quanto ainda não está claro uma frase de Francis, naquela época para designar os jornalistas da geração política (anos 60): “Sempre que encontro alguém daquele tempo, mesmo que não sobre nada de novo em comum, o sentimento de intimidade me volta por baixo da máscara que enfiamos durante anos“. São três lutas completamente diferentes, as quais resultaram (ão) numa mudança social incrível.
Sim, porque não falar em Revolução? Somos todos tão vaidosos por natureza e agora que a regra (que busca predominar diante da tradicional hierarquia, burocracia e restrito, fechado, institucional) é a transparência, podemos assumir sem hipocrisia que acreditamos viver um momento histórico da comunicação. Mas se existe o ambiente ( internet), a atitude e comportamento (colaboração) e ainda um discurso comum dos dois lados porque ainda continuamos tão imaturos?
Eu tenho a sensação de que o gosto pelo privado, pela posse, pela autoria, pela vaidade é tão intenso e cada vez mais forte, por mais que estejamos ligados nesta rede maluca da colaboração, que, ás vezes, acredito fielmente na aposta dos pessimistas. Não teremos chance. É óbvio que não dá pra concluir nada já que somos apenas uns “batedores de pu” ( roubo a expressão do Giba, mas sou menina educada) diante da exclusão digital. Ninguém sabe o que vai acontecer na hora que 50% dos brasileiros inserirem na sociedade em rede. Os mais velhos só profetizam o pânico pela liberdade de expressão humana, que faz história com seus comentários racistas, sarcásticos, preconceituosos, ilegais, enfim sem nenhuma ética. Alguém duvida que o DIABO somos nós? Gente é ruim, maldosa, mesquinha e isso nunca vai mudar. Vem me dizer que você não é? Então, me explica o que é e quem é Deus?
Mas há quem acredita que blog virará email e haja gente falando, falando, falando pra quem? como? De que forma? Essas perguntas vão de encontro com o artigo de Michel Lent, que tornou-se mais um viral na rede: Ruído e Tinta Marron. OK, vocês venceram NA HORA DA MUDANÇA, o discurso certo é do corporativo, que grita há séculos: “tá tudo muito nebuloso, ninguém sabe pra onde vai essa mídia, qual a convergência, esse mundo digital. Todo mundo aposta na interatividade e mobilidade, mas não tem idéia como chegar lá”.
É justamente para aparar essas arestas e tentar alinhar o discurso que estamos organizando o NewsCamp, uma desconferência entre jornalistas, publicitários, acadêmicos, blogueiros, empresas que nasceu na lista de discussão do Jornalistas da Web e acontece pela segunda ocasião após já ter feito a lição-de-casa somente com grupinho pequeno dos coleguinhas. Sim, News é pra todos, inclusive para publicitários! Imagine para blogueiros!?