Entradas do Março 2008

Na hora da mudança…

Março 27, 2008 · 4 Comentários

Existe uma coisa no ar que me lembra muito o “diálogo” entre Thomas More e o utopiano Rafael Hitlodeu, que tentou explicar ao diplomata More as razões pelas quais não adiantaria ele, um ser sábio e filosófico,  assumir um cargo público: “Se não for possível erradicar de uma vez por todas as idéias erradas, nem lidar com os vícios que o hábito já há muito sedimentou, mesmo assim não vejo motivo para  para voltar as costas à vida pública. Seria proceder com a mesma insensatez dos que abandonam o navio em meio à tempestade só porque não conseguem dominar os ventos” .

Essa foi a fala de More para Rafael, que conhecia Utopia de perto. Muito parecida com o post de Marcelo Träsel, do Martelada, ao David Coimbra, do Zero Hora, lógico que considerando o contexto de cada época e a pauta em questão ( política, em 1518 e comunicação, em 2008). Sim, vivemos mais uma vez um choque cultural, que também é muito bem retratado pelas pequenas atitudes dos donos do dinheiro, IG e Terra, e os poucos grupos da mídia tradicional citados no artigo de Juliano Spyer, publicado hoje no Webinsider.

 Acabo de ler o post do Wagner, no Boombust, desabafando o susto que levou ao deparar com os blogueiros constrangidos ao falar de “viabilidade de negócio” (monetização) aos jornalistas da Editora Globo, durante um evento fechado realizado pela Organizações Globo, e percebo o quanto ainda  não está claro uma frase de Francis, naquela época para designar os jornalistas da geração política (anos 60): “Sempre que encontro alguém daquele tempo, mesmo que não sobre nada de novo em comum, o sentimento de intimidade me volta por baixo da máscara que enfiamos durante anos“. São três lutas completamente diferentes, as quais resultaram (ão) numa mudança social incrível. 

Sim, porque não falar em Revolução? Somos todos tão vaidosos por natureza e agora que a regra (que busca predominar diante da tradicional hierarquia, burocracia e restrito, fechado, institucional) é a transparência, podemos assumir sem hipocrisia que acreditamos viver um momento histórico da comunicação. Mas se existe o ambiente ( internet), a atitude e comportamento (colaboração) e ainda um discurso comum dos dois lados porque ainda continuamos tão imaturos?

Eu tenho a sensação de que o gosto pelo privado, pela posse, pela autoria, pela vaidade é tão intenso e cada vez mais forte, por mais que estejamos ligados nesta rede maluca da colaboração, que, ás vezes, acredito fielmente na aposta dos pessimistas. Não teremos chance. É óbvio que não dá pra concluir nada já que somos apenas uns “batedores de pu” ( roubo a expressão do Giba, mas sou menina educada) diante da exclusão digital. Ninguém sabe o que vai acontecer na hora que 50% dos brasileiros inserirem na sociedade em rede. Os mais velhos só profetizam o pânico pela liberdade de expressão humana, que faz história com seus comentários racistas, sarcásticos, preconceituosos, ilegais, enfim sem nenhuma ética. Alguém duvida que o DIABO somos nós? Gente é ruim, maldosa, mesquinha e isso nunca vai mudar. Vem me dizer que você não é? Então, me explica o que é e quem é Deus?

 Mas há quem acredita que blog virará email e haja gente falando, falando, falando pra quem? como? De que forma? Essas perguntas vão de encontro com o artigo de Michel Lent, que tornou-se  mais um viral na rede: Ruído e Tinta Marron. OK, vocês venceram NA HORA DA MUDANÇA, o discurso certo é do corporativo, que grita há séculos: “tá tudo muito nebuloso, ninguém sabe pra onde vai essa mídia, qual a convergência, esse mundo digital. Todo mundo aposta na interatividade e mobilidade, mas não tem idéia como chegar lá”.

É justamente para aparar essas arestas e tentar alinhar o discurso que estamos organizando o NewsCamp, uma desconferência entre jornalistas, publicitários, acadêmicos, blogueiros, empresas que nasceu na lista de discussão do Jornalistas da Web e acontece pela segunda ocasião após já ter feito a lição-de-casa somente com grupinho pequeno dos coleguinhas. Sim, News é pra todos, inclusive para publicitários! Imagine para blogueiros!?

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O que é Mídia Social para você?

Março 21, 2008 · 2 Comentários

“Não posso decifrar você porque não sei como você me decifra”
Fragmentos de um Discurso Amoroso, de Roland Barthes

Resolvi buscar em Barthes justificativas para o desafio de definir Mídia Social. Pirou? Quase!

Sigo a premissa da “paixão” necessária para blogar. Sim ela já se tornou senso comum na blogosfera. Ninguém discute que PRA BLOGAR é preciso ter algo que te mova como a curiosidade ou a “paixão” por carros, por filhos, por dinheiro, por você, pela profissão, por vender seu produto, por cidadania…E por aí vai!

Outra razão pela qual busquei Barthes foram as respostas que obtive de amigos diante de um questionário com cinco perguntinhas, as quais apontam uma determinada convergência sobre O que é Mídia Social?, porém com narrativas completamente diferentes:

Mídias sociais são instrumentos de comunicação entre as marcas e os seus consumidores. Uma conversa sem intermediários“, Manoel Fernandes, da Bites.

São as mídias onde o conteúdo é gerado pelo usuário e o foco é o relacionamento“, Edney Souza, do Interney.

Então, não tive dúvida em reler o capítulo O irreconhecível, do Fragmentos do Discurso Amoroso e acabei encontrando uma frase que talvez possa retratar muito bem essa “diversidade” de opiniões: “ao invés de definir o outro ( o que é que ele é?) me volto pra mim mesmo: O que é que eu quero, eu quero te conhecer?”, Barthes.

Tal frase me lembrou também a idéia de Juliano Spyer de que blogar é um aprendizado.  “Blogar é pensar alto”, essa foi a conclusão que tive após ouvir a palestra de Spyer, no Campus Party. A questão é: mídia social não é apenas blog, ou é?

Simples, vá na wikipedia. Hummmm! Só temos Social Media. E da minha leitura sobrou a seguinte tradução:
1- pluralidade de ferramentas (tecnologia) e práticas online, que resultam em textos, imagens, áudio e vídeo. 
2-Feita por pessoas que compartilham opiniões, idéias, experiências e perspectivas  

Minha conclusão é que Mídia Social é muito mais que blog, porém também é blog. Antes de fazer seu comentário, gostaria que lesse um pedaço da resposta do Rene de Paula, do Radinho e Uau nosso de cada dia:
O potencial social da internet está mudando a nossa maneira de sermos humanos. Quanto a se apropriar desse potencial social como se fosse uma mídia a mais para alavancar estratégias de marketing, isso é um esforço de outra natureza com resultados muito variados e imprevisíveis. E enquanto os marketeiros tentam de alguma maneira colocar rédeas e sela nesse cavalo indomado que é a internet, as pessoas vão dando vida e vitalidade às ferramentas sociais. Em suma: eu vibro com a potência social. Quanto a me apropriar do buzzword mídia social… isso não me anima muito. Acho uma combinação estranha de conceitos que não faz jus ao que já existia e ao que hoje existe”.

PS: a idéia aqui é sempre uma conversa. por isso, conto com seu comentário para definirmos Mídia Social juntos. Este questionário foi enviado a 15 pessoas neste mês e espero colocar aqui fragmentos dessa conversa via email. Participe! 

 

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Fantasia ou realidade: vamos ficar de portas fechadas?

Março 14, 2008 · 3 Comentários

No ano passado, fiz uma reportagem para uma das revistas corporativas da Telefônica, cuja pauta era discutir o quanto o conhecimento ainda é elistista, para poucos e muito caro. Sim! Essa é a nossa realidade, apesar da imensa massa crítica, que se expressa no dia-a-dia e da estratégia padrão de abrir os canais de informação da mídia tradicional. Naquela época, as bibliotecas como Scielo, a inciativa Domínio Público e esforço do Sebrae na área de gerenciamento do conhecimento foram os achados que se posicionavam contra a fechada maneira de ser dos donos do conhecimento.

A Proxxima, JumpEducation e a Digital Age são exemplos presenciais do quanto ainda estamos restritos à busca pelo dinheiro ao invés do papel social da evangelização necessária, cidadã e inteligente quando se trata do enigmático mundo digital. É bom lembrar dos logos que permeiam o blog da Proxxima, que traz quase metade do nosso salário-zinho estampado nos espaços de publicidade com as imagens Brasil e Petrobrás assim como aconteceu no passado na área cultural com o patrocínio ao Cirque du Soleil. Sim, é uma vergonha, mas a realidade é mesmo sem-vergonha na cara, né!

É, por isso, que muitos produtores do mar de informações não tiveram a chance de conhecer um publicitário tão consciente como esse que participou do evento e nos ensina a não viver mais no fantástico mundo maravilhoso da fantasia. Leiam! Eu destaco a seguinte frase dele:

Outro grande erro na transformação dos blogs em mídia é o formato adotado. O blog é a voz de uma pessoa, que fala com milhares de outras, colocar palavras na boca dessa pessoa é como pedir pro seu amigo chavecar a gostosa da balada por você, a coisa fica fake, soa vazia como o Faustão anunciando empréstimo pessoal da Fininvest durante o programa. É complicado imaginar como usar os Blogs como mídia, por que o formato utilizado para essa comunicação não é adaptado ao meio, destoando daquilo que é proposto, passando a falsa impressão de que comunicar de maneira convencional num meio não tradicional já é uma forma de inovação”.
Ricardo Aum

Sem dúvida nenhuma é nosso o papel encontrar caminhos para esses novos formatos, que até podem ser alimentados pelo tradicional bolo publicitário. Porém, precisa ser reinventado a forma de fatiá-lo. Eu estou de saco cheio das críticas feitas ao discurso da monetização quando alguém pensa em planejamento, modelos, oferta e demanda, enfim, quando busca viabilizar o desconhecido mundo digital.

Ok, nossa butique brasileira já aprendeu a copiar o mundo norte-americano do SEO, mas ele não é a única alternativa para todos. E é dever dos acadêmicos pensar e conceituar sobre os valores das redes sociais, dos publicitários descobrir as formas de mensurá-los, dos consultores provar o ROI ás corporações e das empresas sairem de fora da caixa de fazer tudo dentro de casa e sempre com os mesmos profissionais. E, lógico, dos profissionais de mídia social trazerem á tona os projetos. Sim é hora de arriscar sua opinião mesmo que você não saiba nada sobre nada. Até mesmo os bambambãs estão perdidos. Eles sabem que o mundo será móvel e a publicidade, interativa. Mas, e agora, José?

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Muitos canais online são viáveis?

Março 10, 2008 · 14 Comentários

Você pode até ler 10 ou 50 blogs religiosamente, assinar o feed de centenas, deparar com informações exclusivas dentro da sua micro-comunidade, mas ainda assim será informada sobre a política e economia do País pelos raríssimos canais de comunicação do Brasil.

Ainda vivemos o mundo da concentração. E detalhe: eu acredito que a concentração tende a ser maior e ainda mais forte! Ok. Temos mais de 9 milhões de leitores de blogs e acredito que muito mais que 2,3 milhões de blogueiros. E uma audiência espantosa nas redes sociais. A pesquisa do Ibope/NetRatings mostra também que o Brasil está no patamar dos Estados Unidos e do Reino Unido, mercados em que o uso de redes sociais é maior que o de blogs, mas atrás de França e, principalmente, Japão. Em agosto, praticamente 15 milhões de usuários residenciais navegaram em comunidades (incluindo redes sociais, bate-papos, fóruns e blogs), o que equivale a cerca de 80% do total de internautas ativos domiciliares do mês. Desses, mais de 13 milhões (70% do total de usuários) entraram em redes sociais. Mas essa dispersão é viável financeiramente?

Essa foi uma das dicussões que aconteceu neste sábado, no Gafanhoto, em São Paulo, durante a desconferência NewsCamp. A maioria dos jornalistas presentes no evento acredita que não. Motivo? Não há inclusão digital – muito menos social – no Brasil.

Mais de 20% da população brasileira está conectada. Em países como Estados Unidos, Japão, Reino Unido, Coréia do Sul, Canadá e Austrália a penetração já ultrapassou há anos a metade da população. Em 2005, o Brasil foi considerado o quarto país da América Latina em penetração de Internet, de acordo com relatório da União Internacional das Telecomunicações (UIT). Já o estudo da eMarketer, publicado recentemente, mostra o Brasil em décimo no ranking de penentração da internet.

Gilberto Pavoni Jr é defensor árduo de que não há mercado consumidor para mídias sociais hoje no Brasil. E o conceito de prosumers? “Quem produz, precisa ler sites e blogs internacionais para produzir. O tempo de consumo da informação acontece lá fora“, diz ele. Meu amigo Giba tem certa razão. Mas esquece que o mundo digital, aqui no Brasil, chama-se Orkut. E lá há leitores a serem cativados, sim! Mas, detalhe: cativados, conquistados e apresentados ao mundo das mídias sociais.

Esse é o nosso grande desafio. Mas são poucos que estão se dedicando a ele ( infelizmente). Mas, para Giba, essa realidade que vejo na internet brasileira é balela. Quer ter um mundo de muitos canais? Vá criar mercado consumidor! Participe de projetos sociais. Faça campanha para que haja incentivos fiscais e recursos financeiros para as lans-house da vida. Brigue com o governo municipal, estadual e federal para organizar essa cadeia vergonhosa da política de inclusão digital, que distribui o computador, mas não instala nem abre as portas dos laborátorios escolares para sociedade. Grite para que haja liberdade de uso a quem depende dos telecentros da vida. Sim, Giba, sonha que nós - aficionados pela internet, por um sonho e por dinheiro - sejamos cidadãos.

Eu admiro muito meu amigo idealista. E o que não falta entre nós são idealistas. Mas, supondo que alguém tivesse a coragem de fazer acontecer a inclusão social ( trabalho árduo, de loooooooooooooongo prazo e extremamente desafiador), eu pergunto: estamos preparados para ser um mercado de muitos canais de informação?

O grito de Pedro Dória, outro idealista que exige de nós, brasileiros, a atitude norte-americana cheia de auto-estima para informar sobre política e economia do País pode ser ouvido agora? Eu adoraria dedicar meu tempo ás denúncias que são descartadas pelo mundo da concentração. Mas como sobreviver para isso? 

Escrever é o exercício mais complexo da face da terra, mas apurar é muito mais exigente, complicado e doentio que qualquer processo da cadeia da informação. Mais de trezentos e cinqüenta veículos e grupos de comunicação, que representam aproximadamente 90% do investimento em mídia do país, faturaram R$ 527 milhões em publicidade online no ano de 2007, informa o Projeto Inter-Meios. Responda-me: qual foi o investimento publicitário em mídias sociais ano passado?

Se entendi direito, é bom lembrar de um detalhe: 51% desse montante citado pelo Inter-Meios foi a participação das agências de publicidade. Lembre-se: são elas as responsáveis pelos números da quantidade da audiência. TEMPO é dinheiro, mas esse é um ditado para pobres mortais. A publicidade online ainda é regida pela métrica direta dos números. Não há dúvida de que chegou a hora da gente, JUNTOS, antecipar o ano de 2010 para que haja oportunidades agora. Eu acredito que seja possível, mas somente se houver uma luta coletiva.

PS: NewsCamp está previsto para acontecer mais uma vez. Mas, organizá-lo também é tarefa coletiva!

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Mídia social precisa de banner?

Março 4, 2008 · 3 Comentários

Eu nunca gostei da invasão dos pop-ups. Muito menos das janelas que se abrem na home das mídias online. Por isso, a resistência pela publicidade online na construção do Desabafo de Mãe foi imediata. Peço ajuda aos publicitários para minha angústia: se o próprio canal é pessoal, coletivo e interativo, porque preciso de espaço publicitário?

Afinal, o valor da mídia social não é o espaço publicitário, ou é? Associar a marca a algo que não o pertence? Esperar o clique de alguém que ignora banners? Um banner tem o poder de tornar público um relacionamento? OK. Eu concordo que a imagem, o vídeo e, em alguns casos, o aúdio, podem ser ótimos formatos para tornar-se público um produto, um lançamento num espaço de mídia social onde se concentra o público-alvo daquele produto. Mas, então, porque falamos de quantidade? Cadê a qualidade dessa divulgação? Como ela pode ser mensurada?

O valor da mídia social não é  tornar público o produto, mas o conhecimento que se ganha a partir dessa troca gerada pelos seus interlocutores, produtores e colaboradores. Ou seja, é essa experiência focada, segmentada e de conhecimento profundo de um grupo de pessoas que atribui aos editores de um site de mídia social, a capacidade de reconhecer o interesse comum de um determinado grupo. Então, posso “vender” meu conhecimento? Mas isso é ético? Como vender uma experiência de participação? E como essa venda prejudica o grupo? Qual é o limite?

São essas questões que me preocupam muito quando começo a perceber o volume de projetos corporativos, que seguem à risca a exploração fácil da internet que gera conteúdo próprio. Ou seja, dos consumidores que falam, se expõem e criam perfis de audiência. Somos responsáveis por quem nós cativamos, certo?

Eu não tenho dúvida de que é essa experiência, que resulta em conhecimento, e principalmente, em “fazer parte” que será o grande apelo das estratégias online. Mas será o blog corporativo, ou portal web 2.0, quem construirá tal relacionamento? Talvez esses canais sejam funcionais apenas para estratégias isoladas, ou não?

As empresas estão preparadas para respeitar a responsabilidade de quem observa a influência do coletivo? E estão dispostas a investir neste conhecimento, cientes de que trata-se de transparência, ética e respeito?  Essas são algumas das dúvidas que coloco à rede de publicitários e passo a questão para Merigo, do Brainstorm, Gil Giardelli e Jeff Paiva, topam?

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