Você pode até ler 10 ou 50 blogs religiosamente, assinar o feed de centenas, deparar com informações exclusivas dentro da sua micro-comunidade, mas ainda assim será informada sobre a política e economia do País pelos raríssimos canais de comunicação do Brasil.
Ainda vivemos o mundo da concentração. E detalhe: eu acredito que a concentração tende a ser maior e ainda mais forte! Ok. Temos mais de 9 milhões de leitores de blogs e acredito que muito mais que 2,3 milhões de blogueiros. E uma audiência espantosa nas redes sociais. A pesquisa do Ibope/NetRatings mostra também que o Brasil está no patamar dos Estados Unidos e do Reino Unido, mercados em que o uso de redes sociais é maior que o de blogs, mas atrás de França e, principalmente, Japão. Em agosto, praticamente 15 milhões de usuários residenciais navegaram em comunidades (incluindo redes sociais, bate-papos, fóruns e blogs), o que equivale a cerca de 80% do total de internautas ativos domiciliares do mês. Desses, mais de 13 milhões (70% do total de usuários) entraram em redes sociais. Mas essa dispersão é viável financeiramente?
Essa foi uma das dicussões que aconteceu neste sábado, no Gafanhoto, em São Paulo, durante a desconferência NewsCamp. A maioria dos jornalistas presentes no evento acredita que não. Motivo? Não há inclusão digital – muito menos social – no Brasil.
Mais de 20% da população brasileira está conectada. Em países como Estados Unidos, Japão, Reino Unido, Coréia do Sul, Canadá e Austrália a penetração já ultrapassou há anos a metade da população. Em 2005, o Brasil foi considerado o quarto país da América Latina em penetração de Internet, de acordo com relatório da União Internacional das Telecomunicações (UIT). Já o estudo da eMarketer, publicado recentemente, mostra o Brasil em décimo no ranking de penentração da internet.
Gilberto Pavoni Jr é defensor árduo de que não há mercado consumidor para mídias sociais hoje no Brasil. E o conceito de prosumers? “Quem produz, precisa ler sites e blogs internacionais para produzir. O tempo de consumo da informação acontece lá fora“, diz ele. Meu amigo Giba tem certa razão. Mas esquece que o mundo digital, aqui no Brasil, chama-se Orkut. E lá há leitores a serem cativados, sim! Mas, detalhe: cativados, conquistados e apresentados ao mundo das mídias sociais.
Esse é o nosso grande desafio. Mas são poucos que estão se dedicando a ele ( infelizmente). Mas, para Giba, essa realidade que vejo na internet brasileira é balela. Quer ter um mundo de muitos canais? Vá criar mercado consumidor! Participe de projetos sociais. Faça campanha para que haja incentivos fiscais e recursos financeiros para as lans-house da vida. Brigue com o governo municipal, estadual e federal para organizar essa cadeia vergonhosa da política de inclusão digital, que distribui o computador, mas não instala nem abre as portas dos laborátorios escolares para sociedade. Grite para que haja liberdade de uso a quem depende dos telecentros da vida. Sim, Giba, sonha que nós - aficionados pela internet, por um sonho e por dinheiro - sejamos cidadãos.
Eu admiro muito meu amigo idealista. E o que não falta entre nós são idealistas. Mas, supondo que alguém tivesse a coragem de fazer acontecer a inclusão social ( trabalho árduo, de loooooooooooooongo prazo e extremamente desafiador), eu pergunto: estamos preparados para ser um mercado de muitos canais de informação?
O grito de Pedro Dória, outro idealista que exige de nós, brasileiros, a atitude norte-americana cheia de auto-estima para informar sobre política e economia do País pode ser ouvido agora? Eu adoraria dedicar meu tempo ás denúncias que são descartadas pelo mundo da concentração. Mas como sobreviver para isso?
Escrever é o exercício mais complexo da face da terra, mas apurar é muito mais exigente, complicado e doentio que qualquer processo da cadeia da informação. Mais de trezentos e cinqüenta veículos e grupos de comunicação, que representam aproximadamente 90% do investimento em mídia do país, faturaram R$ 527 milhões em publicidade online no ano de 2007, informa o Projeto Inter-Meios. Responda-me: qual foi o investimento publicitário em mídias sociais ano passado?
Se entendi direito, é bom lembrar de um detalhe: 51% desse montante citado pelo Inter-Meios foi a participação das agências de publicidade. Lembre-se: são elas as responsáveis pelos números da quantidade da audiência. TEMPO é dinheiro, mas esse é um ditado para pobres mortais. A publicidade online ainda é regida pela métrica direta dos números. Não há dúvida de que chegou a hora da gente, JUNTOS, antecipar o ano de 2010 para que haja oportunidades agora. Eu acredito que seja possível, mas somente se houver uma luta coletiva.
14 respostas Até agora ↓
Caru // Março 10, 2008 às 3:52 am |
Ceila,
para mim há dois aspectos: o da inclusão social-digital que levaria a um público consumidor; e a formação deste público como internauta, que levaria a uma qualificação.
Com os avanços do acesso às tecnologias digitais – pelos projetos de inclusão digital, pelo barateamento dos equipamentos, pela estabilidade econômica e até pelo fascínio exercido – acredito, conforme disse no NewsCamp, haver um público consumidor já hoje no Brasil. Ele pode ser bem maior, garantindo retornos mais imediatos? Sim, poderia e poderá ser, mas hoje já temos um público consumidor de informação.
O que mais me preocupa neste momento é o segundo aspecto, onde nós, jornalistas, temos mais inferência, que é a produção de conteúdo com o intuito de facilitar uma “alfabetização digital” e uma alfabetização em termos de mídias sociais deste público consumidor.
O uso das tecnologias digitais altera nossa linearidade, passamos a tratar de multilinearidade, de hipertextualidade, em um discurso áudio-tátil-verbo-moto-visual, como dizia Arlindo Machado já em 2001.
Podemos sim pensar, fazer, praticar redes de jornalistas trabalhando colaborativamente em “produtos” ciberjornalísticos comuns. Por que não? Podemos sim em nosso “produtos” jornalísticos individuais no ciberespaço tentar auxiliar nesse sentido. Mas somente produzir informação como se estivessemos escrevendo para o impresso e querer ter lucro com isso, acredito que nem em 2010 a gente terá este público.
A dinâmica é outra, os modelos são outros. Nossas ações também. Audiência aqui não é audiência. Ser público internet é saber publicar informação, gerir redes sociais, mapear fontes confiáveis, estabelecer vínculos…publicar.
Façamos, então, o próximo NewsCamp, coletivamente.
ceilasantos // Março 10, 2008 às 4:29 am |
Caru, não tenho dúvida de que o modelo é outro. aliás, é por isso que é interessante e junta tanta gente pensante e idealista na mesma canoa. E melhor não se trata de um único experimento, mas de vários. Estamos não só falando de muitos canais de informação, mas de diferentes modelos dessa quantidade de mídias sociais. Eu acredito na diversidade de experimentos. E parece ingenuidade, mas ainda acho que não se trata de um passo para seleção natural ( ela haverá, é óbvio) mas não restará um modelo, uma receita. Acredito na seleção que resultará em diversidade. Será que tô ficando louca?
O que rolou? « NewsCamp // Março 10, 2008 às 6:51 am |
[...] 10, 2008 · No Comments Por enquanto, segue os links: O Colega Mudou… O bom debate Muitos canais online são viáveis? NewsCamp: desculpas e algumas impressões Sobre como funciona uma [...]
Pedro Penido // Março 10, 2008 às 11:22 am |
Oi Ceila. Ótima reflexão. Mas me permita alguns comentários.
- Sinceramente acho que o Pavoni era o menos idealista de todos ali no NewsCamp. Inclusive as opiniões de Pavoni, Vasquez e a minha muito se assemelharam no seguinte quesito: sem inclusão social, jamais haverá inclusão digital. Idealismo é imaginar que há mercado consumidor para a degustação de blogs no Brasil. Como já falado em esferas diferentes deste tipo de debate, a Blogosfera brazuca ainda é muito autofágica e seus “famosos” representantes trilham caminhos alternativos à consolidação de qualquer base para o desdobrar de uma mídia social.
Acredito que o grande idealista ali no NewsCamp era o Francesco (muito bem intencionado) e aqueles que o acompanharam em seus posicionamentos. Idealistas por abrirem mão do real cenário material envolvido na discussão de tecnologia e comunicação na sociedade brasileira para simplesmente “quererem acreditar” que “tudo vai dar certo”.
Gilberto Pavoni Junior // Março 10, 2008 às 11:33 am |
Ceila… viu?!?! 2010, como falei, é a data. Hoje, não há mercado. Não é porque três ou quatro probloggers conseguem tirar grana no Adsense e em consultorias para empresas q tipifica a existência de mercado.
Hoje, para mim, a batalha é enfiar todo mundo na Internet – Orkut, IMs, Twitter, blogs… eles têm de usar… usar muito.
Pq as complicações são maiores até do q o discutido. Dependemos do boom de acesso das classes C e D. E isso só começou. Ter computador e conexão não é garantia de cibercultura. Se o público não tiver esse comportamento será somente uma estatística a mais em pesquisas de mercado de compra de PCs. E o que queremos é consumidores de informação digital.
Eu fiquei assustado com os alunos da Unip q não tinham blog. Uma amiga professora já tinha me alertado para isso. Na sala de aula, quase ninguém sabia o q era WiFi e Spam… Embora sejam uma elite, os universitários ainda não têm cultura digital. De outro lado, o público popular q entra agora também não tem. Terá? Sem dúvida, mas precisa de tempo e tb de alguém que sirva de guia nesse território novo.
Enquanto isso, não dá para imaginar que um empreendimento digital ficará dois anos faturando poucos dólares. Ainda mais em um País sem indústria de Venture Capital e dependendo de sobras de budget ou orçamentos mínimos para campanhas de publicidade on-line.
brunocalixto // Março 10, 2008 às 1:33 pm |
Olá Ceila!
Depois da desconferência, fiquei pensando nessa questão de mercado. Acho que existe mercado para muitos canais, porque quem consome aqui no Brasil consome muito. Não sei se inclusão digital ou social, por si só, resolve: consumir informação depende de uma educação básica. Talvez seja papel das mídias sociais levar as pessoas à informação, fazendo talvez com que elas passem menos tempo no orkut e mais em blogs, ou integrando os mundos…
Ah, conte comigo para o próximo newscamp!
Eduardo Vasques // Março 10, 2008 às 3:08 pm |
Ceila, só para começar, achei a iniciativa do newscamp ótima e queria pedir desculpas por não poder ficar o dia todo na discussão. Enfim, sigo a linha ressaltada pelo Pedro Penido e Giba. Não adianta dar um computador com internet pra população sem explicar o que isso pode trazer de produtividade. O aclamado empreendedorismo brasileiro é falso e não passa de válvula de escape de desesperados que perderam seus empregos, receberam as devidas indenizações e resolveram arriscar em algo para sobreviver. Muitas das lan houses, inclusive, nasceram assim.
Como eu disse de manhã, além de não termos mercado consumidor, não temos mercado investidor. Não há venture capital disposta a correr o menor risco no Brasil – como diz o Gilberto e já falamos disso várias vezes – não há coragem de segurar a bronca e colocar o próprio na reta diante dos números e métricas das empresas hoje em dia. E quando digo que não há mercado investidor, basta ver quantos executivos com real poder de decisão sobre dinheiro comparecem a eventos do gênero que foi a newscamp ou o campus party? Não há um real interesse, o negócio é bater métrica pra receber o bônus no final do ano.
Quer outro exemplo? Estive, no final do ano passado, em um evento do Banco do Brasil. Uma mesa redonda para discutir marca e tecnologia. Questionados sobre o que estão programando para o cliente/cidadão 2.0, disseram que estão “observando” o que está sendo feito. Não está “agindo”, apenas observando. E isso é o que está acontecendo agora.
Na discussão com o Francesco e com a Caru, sobre buscar linhas de financiamento – em institutos ou empresas – respeito o ponto de vista dos dois, mas como o Giba, acho inviável nesse momento. É dicícil até mesmo conseguir acessar essas pessoas que estão com o dinheiro nas mãos, que dirá convencê-las de que um projeto digital pode ir para frente. A publicidade na web ainda é dinheiro de pinga perto do que ela poderia receber.
Há dois anos, costumávamos brincar que web no Brasil é para punheteiros, e nada mudou muito de lá para cá. Não nego a evolução digital e das redes sociais, mas não consigo ver toda essa maravilha que pregam sobre o que ela é capaz de fazer. E não é puro ceticismo, mas realidade de mercado.
Em contato com vários presidentes de empresas, diretores com poder de decisão em investimentos e tal, além do temor em fugir do habitual e aplicar em novas formas de se relacionar com o público, por enquanto não botam a menor fé. Assim como o Banco do Brasil, estão apenas observando e deixando o barco correr.
Sobre as universidades, só o fato dos alunos não saberem o que é spam e wifi já mata a discussão. O Marcão está estudando e quando comenta ou tenta puxar a internet para o centro da discussão, alunos e, principalmente, professores, ainda usam o discurso de que “a web é incipiente”. Preciso escrever mais?
As discussões da Newscamp « Pérolas das AIs // Março 10, 2008 às 6:04 pm |
[...] o espírito da Internet As mentes fechadas do jornalismo NewsCamp: desculpas e algumas impressões Muitos canais online são viáveis? NewsCamp – Hit do Momento: Mídias Sociais Sobre como funciona uma desconferência NewsCamp: [...]
Alexandre Carvalho // Março 10, 2008 às 6:29 pm |
Tudo isso que foi dito nos comentários do Pedro, do Gilberto e do Eduardo batem e muito com o que penso também e se resume em poucas palavras: é necessário ter os pés no chão.
O mercado brasileiro já tomou uma sova fenomenal na época do estouro da bolha, onde um maluco resolvia patrocinar outro maluco sem saber onde isso ia dar. E deu no que deu. Será que ninguém aprendeu nada vendo tanta pontocom indo para o ralo da noite para o dia? Por que hoje ainda há quem pense que poderia ser diferente?
Alexandre Carvalho // Março 10, 2008 às 6:39 pm |
Agora, uma pergunta: Como vocês acham que seria possível criar um mercado consumidor de informação na base da pirâmide se vários analfabetos funcionais no ambiente digital, como os estudantes da Unip, estão presentes no topo?
ceilasantos // Março 10, 2008 às 8:13 pm |
alê, minha resposta para sua pergunta é fazer muitos newscamps, convidar sempre as universidades, fazer parte desse mundo e não ficar achando que lá é assim ou assado, ter muita paciência e dedicação para esclarecer dúvidas, navegar muito no orkut ( nossa internet brasileira) incentivar nossos pais a blogarem, usar sempre hiperlinks, ser extremamente ético, relacionar com quem está fora do seu grupo de coleguinhas, ouvir, ouvir, ouvir, visitar lan house, conversar com as pessoas que estão lá, perguntar se elas tem blogs. aliás podíamos montar um espaço onde contabilizamos os blogs que nós incentivamos. eu tenho várias histórias legais de gente que começou a blogar e está amando, que tal? isso é só começo, tem que ser feito muito mais… Mas essas gotas precisam começar logo no mar de informações
NEWSCAMP ou SONY VAIO COR-DE-ROSA « Alphablog // Março 11, 2008 às 8:22 am |
[...] Pavoni Junior, em março 10th, 2008 às 11:33 am Diz: Ter computador e conexão não é garantia de cibercultura. Se o público não tiver esse [...]
Eduardo Vasques // Março 11, 2008 às 7:14 pm |
Ceila, porque não tenta centralizar essa histórias de novos blogueiros aqui no midia social? Creio que uma por semana renderia muita interação.
Outra: diga-me como posso ajudar a organizar o próximo NewsCamp? Estou dentro, dessa vez para passar o dia todo.
Abraço
Edu
Alexandre Carvalho // Março 12, 2008 às 2:50 pm |
Tô nessa também! E digo mais: acho que já podemos começar a disseminar a idéia para que profissionais e estudantes de outras regiões do País comecem a fazer o mesmo. Já pensaram no efeito que isso teria se ocorresse simultaneamente, no mesmo dia?