Não há dúvida de que ética e transparência são cruciais para as agências de marketing digital e as consultorias de novas mídias com foco empresarial. Por outro lado, o enigma está em como estimular e explorar o potencial da ”sociedade em rede” quando o nome do jogo é marketing guerrilha? Ou seja, tudo de graça e com um efeito assustador para o cliente quando se trata de volume de informação, espuma e discussão.
Eu tenho minhas opiniões pessoais que vão totalmente contra o caminho de agora. Eu acredito em estratégias de relacionamento, mas isso exige respeito e vínculo. Ou seja, nada pra agora e muito menos com grande escala. Pelo contrário. Minha crença está na publicidade que acredita em pessoas e respeita suas escolhas. Não na publicidade que intimida o mais fraco e ainda o acusa pela falta de ética. Ou seja, minha crença exige estratégias de nicho e longo prazo. Não gosto das estratégias de exploração que visam apenas os resultados imediatos.
Mas esse não é o cenário que encontrei, durante o NewsCamp, quando participei da desconferência com alguns profissionais de mídia corporativa. Confesso que me dediquei pouco às conversas da sala de cima do Gafanhoto, onde a turma de negócios passou a maior parte do tempo. Mas descobri que relacionamento ainda está preso às velhas estratégias de jabá, que sempre foram tema para os bastidores da imprensa. É bom reforçar que a hipocrisia comanda esse processo na imprensa: há editoras que têm políticas de comunicação que impedem o jornalista receber jabá, mas permite que o diretor editorial receba seus brinquedinhos em casa.
OK. Ninguém tem dúvida de que ética se aprende em casa. Porém, no Brasil, status é mais forte que prato de comida: vide a euforia dos celulares. E, diante dessa cultura cheia de jeitinhos, eu confesso que jabá não é apenas uma questão de ética. Pelo menos, pra mim, não é tão simples assim. Jabá representa, para muitos, oportunidades a quem deseja fazer parte ou a quem tem fome. E dizer que isso é apenas a prática do ditado “cada um tem seu preço” soa, no mínimo, uma conclusão simplista. Heloooooo, estamos no Brasil. Responda-me: porque a LG não dá seus brinquedinhos para os presidentes das corporações andarem de helicóptero e fotografar as imagens vistas lá de cima? Seria uma estratégia de relacionamento? Não é fácil discutir “o que homem faz a partir do que fizeram dele” ( Sartre).
Mas dizem que tal estratégia funciona. Eu tenho minhas dúvidas. Questionei diversas vezes, durante o NewsCamp, se um plano de relacionamento, que envolve jabá, não pode ser visto como o tão mal falado post pago, que ganhou fama de falta de ética( acho injusto tal fama, mas a prática mostra o contrário). A maioria acredita que não. Eu acho que está tudo dentro do mesmo saco (post pago que omite e jabá que intimida produtor de conteúdo). Isso não é relacionamento, mas exploração.
Se o jabá é uma convenção que eu acho que deve ser revista a partir da sociedade em rede - porque cada vez mais haverá mais pessoas comuns e, consequentemente, sem condições de fazer parte do grupinho que tem status - há outras como informe publicitário, classificados e formatos padrão de páginas para espaços publicitários que acredito que não devem ser reinventadas.
1-Post pago, pra mim, segue a regra de informe publicitário. Ou seja, conteúdo devidamente identificado como publicidade ( pago) para leitor. Muitos jornalistas são contratados para fazer informe publicitário e ganham extra para escrever para o anunciante. Porém, quem assina aquela “reportagem” é a empresa.
2-Quer replicar o conteúdo do meu blog no seu site? Isso é licenciamento de conteúdo.
3-Quer associar sua marca ao meu conteúdo? Isso é anúncio de página inteira, meia página ou joelho.
4-Quer divulgar seu produto? Faça um classificado. Ou seja, link patrocinado nas lojinhas ou no Google Ad Sense.
Agora quer uma estratégia de relacionamento com meu público? Então, venha conversar com minha comunidade, bata na porta antes de entrar, deixe claro quem você é, esteja preparado pra ouvir críticas e, acima de tudo, não vá embora antes de criar vínculos. Você pode aprender muito a partir daquilo que você me ensina. Mas, ensinar não é me convencer a comprar seu produto, ok? Pelo contrário. Nossa estratégia está baseada em troca. Comprar, ou não, seu produto é apenas uma consequência da nossa história.