Entradas do Setembro 2008

Minha Cabeça de Papel

Setembro 12, 2008 · 3 Comentários

Ter Cabeça de Papel te induz a viver dentro de um mundo tão pequeno e limitado que a sensação é de que a verdade está bem ali, clara e simples. Você pode até falar e agir sobre coisas que soam estranho e ainda se divergem da sua verdade, mas é raro, mas muito raro, que você tenha consciência de que aquilo que você fala está atrelado à caixinha escura que representa sua vida, sua verdade, seu mundo. Me sinto completamente estranha, até um pouco idiota (confesso), mas é bastante passageiro. Olho e lembro que nessa nova era um dos mantras que devemos adotar para conseguir rasgar essa caixinha absurda é bastante simples: Não critica-se mais, corrigem-se erros”.

Então, chegou minha hora de me corrigir. Pelo menos daquilo que sei e identifico como erro. É bom lembrar que ainda vivo no escuro para ter capacidade de enxergar a dimensão da minha Cabeça de Papel. Mas agora ouço vozes. Um amigo lembra que é preciso ter foco naquilo que já plantei e deixar a dispersão de lado. No placo do Media On, ouço Antonio Granado que me alerta para o lado de fora que já faz parte da minha vida virtual, mas continuava distante da minha consciência:

É preciso participar das redes sociais, depois integrar as redes sociais, em seguida usar as redes sociais na elaboração da produção de conteúdo

Tento engolir um café diante do óbvio, mas minha Cabeça de Papel insiste em me criticar. Acusa-me de ser idiota. Mostra-me minha incapacidade de enxergar o óbvio. Dura pouco. Nada melhor que um banheiro com sabonete de espuma para descarregar toda a merda que insiste em julgar aquilo que não sabia. Mas quem foi que disse que a Cabeça de Papel aceita algo novo sem agir? Sinto, então, o sabor da autoria e faço do óbvio uma descoberta e já que não posso me criticar, exalto-me e faço do roteiro de Granado, uma descoberta própria.

Mas atravesso a rua e ouço que o Código é a lei da cibercultura ( Sérgio Amadeu). E agora, Cabeça de Papel? Sou obrigada a enxergar o todo, durante o Seminário Cidadania Digital da Cásper Líbero, que acontece ainda nesta sexta-feira. Hummm, melhor não digerir tanto. Você não está acostumada!

Que tal uma volta pelo passado?

Gosto muito de reler a mim mesma. Resolvi navegar no extinto Metamorfose e encontrei o post Seja transparente e torne-se um jornalista diferente, escrito em abril deste ano a partir da leitura do Renato Cruz e Juliano Spyer. Naquela época ( cinco meses atrás), não tinha a mínima idéia do “modelo” que precisava adotar para atuar como jornalista do Desabafo de Mãe.

Hoje sei que o modelo que adoto agora pode ser descartado amanhã. Aprendi o quanto é mutante  – e até certo ponto “individual” – o processo de produção de textos feitos a partir da rede de associações que você faz parte. Não só porque a gente escreve a partir daquilo que a gente lê, mas também porque a gente lê aquilo que nos interessa agora. Amanhã tenho absoluta certeza que minha rede de leitura será completamente diferente da de hoje e isso vai influenciar muito no meu jeito de escrever reportagens para o site Desabafo de Mãe. Soa até piegas de tão óbvio essas conclusões, mas vivê-las literalmente na pele passa a ter um sentido de “eureca” para mim. Sim, coisa de quem tem Cabeça de Papel. Tudo está pronto. Nada é seu, mas você pode usar esse todo do seu jeito e, cuidado, você torna-se responsável pelo uso que faz disso.

O que aprendi agora foi repetido religosamente por muitos colegas, blogueiros e jornalistas, religiosamente em diversas ocasiões da minha vida online, que já completa quase três anos. E, detalhe:praticada por mim mesma muitas vezes e de forma completamente voluntária. Mas só hoje ela faz sentido.  Agora, sim, ela foi assimilada. Será mesmo? Ter Cabeça de Papel, nos dias de hoje, é um saco!

Não posso negar que a consciência do modelo que uso agora e a forma que escuto novas vozes é fruto da leitura do livro “As Tecnologias da Inteligência”, de Pierre Lévy, e de todas as pessoas que me rodeiam de alguma forma, inclusive você que me lê em silêncio. Anotei algumas frases do livro que contribuiram para meu alerta antes de me indentificar como Cabeça de Papel:

Dar sentido a um texto é o mesmo que ligá-lo, conectá-lo a outros textos, e portanto é o mesmo que construir um hipertexto. Quanto mais conexões o item a ser lembrado possuir com os outros nós da rede, maior será o número de caminhos associativos possíveis para a propagação da ativação no momento em que a lembrança for procurada.

Lévy ensina não só o “jornalismo do hiperlink” como ainda dá noções sobre os conceitos de otimização de site ( SEO) e de como funciona a rede. Eu fui obrigada a perceber o desafio de dar nome aos bois ( usar hiperlinks) quando precisei responder dúvidas de quem não entendia quando devia usar o hiperlink. Ele precisava de uma regra na hora de editar um release. Não bastava lhe dizer apenas “use o hiperlink quando necessário” porque ele ainda não tinha o hábito de fazer parte da blogosfera. Então, tornou-se necessário ter um mecanismo de fazer notícias: Linke o sujeito, o assunto e o local ( com Google Maps). Mas isso não basta.

“Não se trata de caçar ou de perseguir uma informação particular, mas de recolher coisas aqui e ali, sem ter uma idéia preconcebida”"

“Dominamos a maior parte de nossas habilidades observando, imitando, fazendo e não estudando teorias na escola ou principios nos livros”

Posso até obrigar o outro a ler minha lista de blogs, mas isso jamais deu certo. E nunca dará certo porque é preciso fazer parte da rede e ninguém faz parte daquilo que não o interessa. É um caminho solitário onde cada um busca e aprende a partir daquilo que lhe interessa. Não há controle, gestão ou qualquer fórmula que remete a manuais que imponha uma receita ao outro. Você pode e deve indicar blogs, listas, comunidades, mostrá-las, recomendá-las muito, mas nada disso é uma garantia de que aquilo será aceito pelo outro. Uma hora ele acha sua própria rede, mas demora. E como demoraaaaaaa…

“A nova escrita hipertextual ou multimidia estará mais proxima da montagem de espetáculo do que de uma redação clássica. Ela irá exigir equipe de autores, um verdadeiro trabalho coletivo.”"

Você pode até acreditar que a equipe de autores sejam seus hiperlinks, sua própria rede e a equipe de profissionais que alimenta seu site. É verdade envolve toda essa infinita galera, mas começo a perceber que espetáculo só acontece com muita gente diferente que complementa, acrescenta, renova, inova justamente seus pontos fracos. Não adianta ter uma equipe de jornalistas para produzir conteúdo porque hipertexto é “um conjunto de nós ligados por conexões”.

“Separar o conhecimento das máquinas da competência cognitiva e social é o mesmo que fabricar artificialmente um cego ( o informata puro), e um paralítico ( o especialista puro em ciências humanas), que se tentará associar em seguida; mas será tarde demais, pois os danos já terão sido feitos.

As frases foram retiradas de forma aleatória do livro de Lévy. É bom lembrar que no próximo livro, encontro, ou vozes, tudo isso pode ganhar um novo sentido…Tomare que a Cabeça de papel esteja preparada para ouvir! Tomare!

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Pierre Lévy e Michael Rosenblum

Setembro 10, 2008 · 6 Comentários

Quem estava ao lado de Michael Rosenblun no palco do Media On ( evento patrocinado pelo Terra que acontece até quinta-feira no Itau Cultural, em São Paulo) era Marcelo Tas, mas cada palavra que ouvia do jornalista norte-americano me remetia ao livro que encontrei de graça na “biblioteca” do SESC Pinheiros,  As Tecnologias da Inteligência, de Pierre Lévy (1993). Então não pude deixar de mudar a dupla no título deste post para escrever agora.

Rosenblum adora falar palavrão ( ufa! que alívio: também gosto de usar certas palavras consideradas não-politicamente corretas) em inglês fica ainda mais sonoro porque parece mais curtas e adequadas. Ele também adora contar história e, talvez, por isso lembrei muito do roteiro utilizado por Pierre Lévy, que descreve os sentidos do manuscrito, do livro, da impressão para falar sobre o hipertexto. Ambos deixam claro a importância de Gutemberg para mudar a forma de se comunicar e relaciona tal transformação aos momentos que vivemos agora onde a internet ou o “pólo informático-mediático” ( termo utilizado por Levy)  muda de novo essa brincadeira de se comunicar com outros.

Enquanto Lévy te convence que a impressão permitiu criar a interface da página de título, cabeçalhos, numeração regular, sumários, notas, referências cruzadas e o hipertexto demanda uma nova arquitetura de comunicação, Rosenblum nos assusta com a cruel realidade do fim das instituições – aquelas que são e sempre serão presas aos processos operacionais de imprimir, circular e gerenciar para vender conteúdo. Não cheguei ainda na terceira parte do livro de Lévy, mas já se percebe o quanto ele deixa claro que os três pólos ( oralidade, escrita e informático-mediático) estão sempre presentes a cada instante e a cada lugar, mas com intensidade variável. Rosenblum assusta, mas combina muito bem com aquilo que ensina Lévy quando responde à uma pergunta de Tas contando uma nova historinha, a qual ele afirmou ao executivo de um grande grupo de comunicação que tudo isso só vai mudar quando caras como o dono do jornal morrer e deixar de imprimir o papel do jornal ou de bancar o estúdio caro do broadcasting.

Seria perfeito demais se tudo isso estivesse acontecendo agora e, detalhe, está acontecendo exatamente agora só que muita gente ainda não morreu para deixar de ganhar dinheiro como ganhava no passado. E o custo da impressão ainda é alto para que nós, apaixonados pela internet, deixemos de usar a expressão “jornalismo online” para falarmos de jornalismo.

PS:Tas comenta que a expressão ‘jornalismo online” não tem mais sentido para a nova geração. Oba! Será que nós já velhinhos para sermos repórteres da redação podemos nos considerarmos da nova geração?

A resposta que a platéia buscava diante da realidade que Rosemblum apresentava no palco era: mas como nós, brasileiros, vamos sobrevivermos até os donos e executivos da impressão morrerem?

Ele gritava em alto e bom som: o que você tiver coragem de fazer. E ainda ensinou que: não adianta ficar sentado esperando a mídia convencional fazer algo por nós. E foi além: mostrando que a critividade exige fracasso em cima de fracasso. Ainda deu a dica do público: eu não quero que alguém me indica o que é melhor para mim. Eu mesmo defino isso a partir daquilo que eu escolho. Não precisa de editor a partir da democratização da escrita na web“. Mas a sensação é de que o público ainda buscava a resposta. As perguntas continuavam e Rosenblum, então, resolveu dar mais uma dica: Faça o curso de cinco dias que eu ministro lá na universidade.

Talvez se Lévy replicasse a frase em que finaliza o capítulo 11-Esquecimento, tornaria-se mais fácil ouvir o que Rosenblum espera de cada um de nós: “ Para inventar a cultura do amanhã, será preciso que nos apropriemos das interfaces digitais. Depois disso, será preciso esquecê-las“. Hummmmmmm, difícil esquecer tanta coisa nova que ainda não assimilei agora, mas é bom saber disso, né!?

Estou começando o capítulo em que Lévy começa a falar de ecologia digital e já grifei uma frase que considero crucial para nos tornarmos mais aptos a aprender esse jeitinho web de se comunicar: “Não sou “eu” que sou inteligente, mas “eu” com o grupo humano do qual sou membro, com minha língua, com toda uma herança de método e tecnologias intelectuais (dentre as quais, o uso da escrita).” Um amigo me questionou o que fazia ali no MediaOn, pra qual blog ou empresa estava cobrindo o evento, talvez, a frase copiada acima demonstra um pouquinho as razões pelas quais pessoas comuns podem participar de sessões fechadas para convidados. Ah! e pra quem teve interesse de ler o livro de Lévy e anda sem grana como eu, prometo entregá-lo na “biblioteca” do SESC Pinheiros neste fim-de-semana, tá?

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