Quem estava ao lado de Michael Rosenblun no palco do Media On ( evento patrocinado pelo Terra que acontece até quinta-feira no Itau Cultural, em São Paulo) era Marcelo Tas, mas cada palavra que ouvia do jornalista norte-americano me remetia ao livro que encontrei de graça na “biblioteca” do SESC Pinheiros, As Tecnologias da Inteligência, de Pierre Lévy (1993). Então não pude deixar de mudar a dupla no título deste post para escrever agora.
Rosenblum adora falar palavrão ( ufa! que alívio: também gosto de usar certas palavras consideradas não-politicamente corretas) em inglês fica ainda mais sonoro porque parece mais curtas e adequadas. Ele também adora contar história e, talvez, por isso lembrei muito do roteiro utilizado por Pierre Lévy, que descreve os sentidos do manuscrito, do livro, da impressão para falar sobre o hipertexto. Ambos deixam claro a importância de Gutemberg para mudar a forma de se comunicar e relaciona tal transformação aos momentos que vivemos agora onde a internet ou o “pólo informático-mediático” ( termo utilizado por Levy) muda de novo essa brincadeira de se comunicar com outros.
Enquanto Lévy te convence que a impressão permitiu criar a interface da página de título, cabeçalhos, numeração regular, sumários, notas, referências cruzadas e o hipertexto demanda uma nova arquitetura de comunicação, Rosenblum nos assusta com a cruel realidade do fim das instituições – aquelas que são e sempre serão presas aos processos operacionais de imprimir, circular e gerenciar para vender conteúdo. Não cheguei ainda na terceira parte do livro de Lévy, mas já se percebe o quanto ele deixa claro que os três pólos ( oralidade, escrita e informático-mediático) estão sempre presentes a cada instante e a cada lugar, mas com intensidade variável. Rosenblum assusta, mas combina muito bem com aquilo que ensina Lévy quando responde à uma pergunta de Tas contando uma nova historinha, a qual ele afirmou ao executivo de um grande grupo de comunicação que tudo isso só vai mudar quando caras como o dono do jornal morrer e deixar de imprimir o papel do jornal ou de bancar o estúdio caro do broadcasting.
Seria perfeito demais se tudo isso estivesse acontecendo agora e, detalhe, está acontecendo exatamente agora só que muita gente ainda não morreu para deixar de ganhar dinheiro como ganhava no passado. E o custo da impressão ainda é alto para que nós, apaixonados pela internet, deixemos de usar a expressão “jornalismo online” para falarmos de jornalismo.
PS:Tas comenta que a expressão ‘jornalismo online” não tem mais sentido para a nova geração. Oba! Será que nós já velhinhos para sermos repórteres da redação podemos nos considerarmos da nova geração?
A resposta que a platéia buscava diante da realidade que Rosemblum apresentava no palco era: mas como nós, brasileiros, vamos sobrevivermos até os donos e executivos da impressão morrerem?
Ele gritava em alto e bom som: o que você tiver coragem de fazer. E ainda ensinou que: não adianta ficar sentado esperando a mídia convencional fazer algo por nós. E foi além: mostrando que a critividade exige fracasso em cima de fracasso. Ainda deu a dica do público: eu não quero que alguém me indica o que é melhor para mim. Eu mesmo defino isso a partir daquilo que eu escolho. Não precisa de editor a partir da democratização da escrita na web“. Mas a sensação é de que o público ainda buscava a resposta. As perguntas continuavam e Rosenblum, então, resolveu dar mais uma dica: Faça o curso de cinco dias que eu ministro lá na universidade.
Talvez se Lévy replicasse a frase em que finaliza o capítulo 11-Esquecimento, tornaria-se mais fácil ouvir o que Rosenblum espera de cada um de nós: “ Para inventar a cultura do amanhã, será preciso que nos apropriemos das interfaces digitais. Depois disso, será preciso esquecê-las“. Hummmmmmm, difícil esquecer tanta coisa nova que ainda não assimilei agora, mas é bom saber disso, né!?
Estou começando o capítulo em que Lévy começa a falar de ecologia digital e já grifei uma frase que considero crucial para nos tornarmos mais aptos a aprender esse jeitinho web de se comunicar: “Não sou “eu” que sou inteligente, mas “eu” com o grupo humano do qual sou membro, com minha língua, com toda uma herança de método e tecnologias intelectuais (dentre as quais, o uso da escrita).” Um amigo me questionou o que fazia ali no MediaOn, pra qual blog ou empresa estava cobrindo o evento, talvez, a frase copiada acima demonstra um pouquinho as razões pelas quais pessoas comuns podem participar de sessões fechadas para convidados. Ah! e pra quem teve interesse de ler o livro de Lévy e anda sem grana como eu, prometo entregá-lo na “biblioteca” do SESC Pinheiros neste fim-de-semana, tá?
6 respostas Até agora ↓
Juliana Ricci // Setembro 10, 2008 às 3:00 pm |
Avisa ao Sesc que eu vou pegar o livro!!! rs……
A verdade é cruel: ainda dependemos sim de $$ e da máquina das corporações pra conseguirmos fazer trabalhos legais na web. Fora isso, só com muito suor e trabalho voluntário. A idéia de liberdade para os produtores de conteúdo tá engatinhando ainda. Só espero que não morra antes dos velhos detentores do poder.
Calazans // Setembro 10, 2008 às 6:26 pm |
Neste capítulo e no sétimo, é possível acompanhar como Lévy já começa a estruturar suas idéias de diferenciação entre cultura oral e cultura escrita, dois pólos diferentes de memorização, para depois definir um terceiro campo de cultura e de memorização imposto pelas novas tecnologias. Boa leitura!
ceilasantos // Setembro 12, 2008 às 7:01 am |
Oi Ju, não vai morrer, não. A gente não pode deixar que morra, né? Tem muita gente já fazendo acontecer e tenho certeza absoluta que novas formas serão praticadas em breve em diversos espaços completamente diferentes. Ah! E to terminando o livro, entrego na sexta. eu aviso que vc irá pegá-lo na segunda. bjkas
Calazans, muito obrigada pela visita e obrigada pelas dicas do que vem por aí.
Sérgio F. Lima // Setembro 12, 2008 às 9:37 am |
Opa Celia Santos!
Muito legal estas tus sacações e muito mais legal compartilhá-las deste modo visceral
Sobre o comentário da Julina eu não acho que se dependa tanto das corporações! Existe tecnologias acessíveis mesmo sem muita grana… e criatividade e coragem fazem milagres!
abraços
ceilasantos // Setembro 12, 2008 às 12:30 pm |
Oi Sergio,
Prazer te receber por aqui. obrigada pela visita e concordo contigo que não é preciso do poder das corporações para colocar a mão na massa diante da infinidade de possibilidades de uso que está aberta de graça para quem tem acesso à web. Exemplos disso não faltam por aqui, né!
Valeu!
Fragmentos da Cultura da Interface, de Steve Johnson « Mídia Social // Novembro 12, 2008 às 6:06 am |
[...] motivo do desespero pelas anotações da leitura feita sobre As Tecnologias da Inteligência (emprestado da biblioteca do SESC Pinheiros) é porque leio somente agora A Cultura da Interface, [...]