No script da vida, chega uma hora em que você vai pensar em voltar para a Faculdade, ou não. Mas se você já chegou naquele estágio de cansaço profissional, em busca de algo novo e ainda sua profissão está passando pela fase (“Terapêutica”) da reinvenção, é bem provável que o tal do Mestrado vai rondar sua cabecinha. Aí, você olha para o lado: 80% dos seus amigos estão fazendo, pensando em fazer ou já fizeram o danado. Então, você pensa: e agora José? Ou, você mergulha na onda sem pensar em nada. Já eu??? Hummmmmm….
Eu gosto de colocar pedra no meio do meu caminho. Então, penso: e agora, Caipirapora??!!
Caipirapora Original Mesmo escolhe aquilo que todo mundo conhece: USP! Afinal, até Paulão, lá de são tomás, acha que USP é diminutivo de universidade. Já saiu da USP?, pergunta ele quando vê alguém que está cursando a faculdade e, por isso, mora fora de casa.
E aí já que é pra pensar, começa devagarinho. Só observando. Tudo parece fácil: basta falar com a mulher que é orientadora dos 80% dos seus amigos, inventar alguma coisa relacionada à web e fazer uma provinha. Detalhe: a tal fluência no inglês parece que vale de quem só lê e escreve.
Mas, Nossa Senhora, eu gosto de colocar pedra no meu caminho. Então, resolvi começar como Aluno Especial, na minha área, e paguei pra sentir clima de outra área. Mas quem é caipirapora se apaixona, gosta de criar rituais para contemplação…E aqui estou eu me deslumbrando de novo com novo.
O encantamento, agora, é pelas metodologias da pesquisa. Resolvi ler ” Alternativas metodológicas para produção científica“, de Maria Nazareth Ferreira. Faz parte do pacote do Celacc, um centro de estudos que tem na ECA , o qual eu cai de paraquedas por lá assim como um monte de gente.
A autora esteve no auditório no primeiro dia de aula e minha percepção foi daquelas típicas de Caipirapora, que chora quando vai embora de casa ou ouve o som da viola. Aquele gostinho de que algo a mais realmente existe veio na boca e caracterizei a mulher como mais uma Mestra da minha vida. [Vale ressaltar que eu sou um pouco abençoada de mestres, vivo atribuindo essa tarefa para alguém na minha vida. E não me arrependo. Tive muita gente boa e ruim me ensinando a viver, todos de certa maneira me fazendo um bem danado e, lógico, a sofrer um pouquinho pra aprender.]
Comecei a ler o livro porque as perguntas que Orlando fez aqui, no post passado, me deu vontade de levar adiante a idéia de realmente entrar nessa. E, pra variar, achei que o livro tinha sido escrito pra mim. Coisa esquisita, sô. Tudo que passei até agora tava lá no livro, uai: a ingenuidade de mergulhar bem fundo numa idéia, abandonar um pouco a vida pela construção do objeto, colocar o negócio funcionando sem saber exatamente do que se trata e com isso feito, entrar numa fase de repensar e questionar, de novo, a mim mesmo até sobre quem eu sou… E pra fechar o ciclo: buscar o mundo acadêmico. Parece até coisa de livro, ou seria de duende, bruxa ou Nossa Senhora da Aparecida!
É óbvio que esse ciclo faz parte da minha interpretação de Caipirapora, mas vale a pena destacar alguns fragmentos que me faz pensar essa coisa toda aí em cima:
“Conhecer é transformar, penetrar as causas dos fenômenos e, portanto, descobrir o poder de modificá-los”
“Sem conhecimento da filosofia é impossível produzir o conhecimento científico”
“A ciência explica o mundo, mas se recusa a habitá-lo”
Eu entendi que Nazareth explica que até as pesquisas cientíticas entraram na era da automação, do mundo técnico demais, cheio de prazos, limites e metas. Ou seja, até as teses e mestrados seguem a receita de bolo padrão. Basta seguí-las para atingir seus resultados. Ela crítica esse exagero e sinaliza os resultados dessa dinâmica, mas também mostra que é a combinação do aprendizado do método com a filosofia ( pensar e contemplar) que traz um caminho diferente para pesquisa. E é óbvio que esse caminho é um jeitinho de colocar A Pedra no meio dele, mas eu já falei que gosto disso, né!?
A sensação que tive é de que a relação entre o Sujeito e o Objeto de Conhecimento é que diferencia as metodologias. Ela propõe uma metodologia de pesquisa com dialética entre seus dois atores, onde essa troca permite a transformação de ambos. Você até se questiona: o quanto fazer parte do objeto de conhecimento é importante para ciência, o quanto vale a experiência e até entende os riscos de ter tal perfil, mas depois a sensação é de qua há alternativa e riqueza pra quem faz parte do objeto de conhecimento.
Vale registrar o que ela diz pra passar algo pra quem chegou a ler até aqui:
Três príncipios fundamentais para fazer uma pesquisa científica:
1- Existem coisas independententemente de nossa consciência, de nossa sensibilidade, fora do nosso conhecimento
2- Não existe, nem pode existir, nenhuma diferença entre o fenômeno em si e a coisa em si; o que existe é a diferença entre o que é conhecido e o que ainda não se conhece, devido ao nível de desenvolvimento das técnicas
3- Na Teoria do conhecimento, como em todos os domínios da ciência é necessário raciocinar sempre dialeticamente, isto é, não supor jamais que o conhecimento atual é acabado e imutável, mas, sim, de que maneira o conhecimento incompleto e inexato pode chegar a ser mais completo e inexato. para tanto, vale observar técnicas que podem ser interligadas em quaisquer procedimentos metodológicos.
Resumo da ópera: eu não descobri ainda o caminho para fazer Mestrado. Minha percepção é de que o mundo acadêmico respeita uma ordem estabelecida e, talvez, até necessária para você bater na porta. Precisa ter a senha certa para pegar na mão do orientador e passar nos editais. Obtê-la não é difícil, basta conhecer o amigo do amigo do amigo. Mas se você ainda não faz parte do grupo e gosta de uma pedrinha no meio caminho, eu aconselho a ler este livrinho durante uma tarde no parque.
bjkas!