Capital Simbólico da blogosfera, como ele se forma?

Julho 4, 2009 · 12 Comentários

O abandono da vida online aconteceu por três motivos: trabalho, faculdade e terapia. Mas o que não faltou foram posts pensados no travesseiro…Vontade de lembrar pelo menos de alguns deles, mas agora não resta nenhum fragmento. O que me traz aqui é a primeira idéia sobre uma tese: Quais as trajetórias para formação do campo simbólico entre blogueiros? Essa foi a primeira pergunta, na sala de aula, que o Dennis sugeriu como tema para um TCC. Ainda não sei se é isso nem se devo trilhar para um mestrado de jornalismo, mas a sugestão dele me incentivou a voltar a falar com a telinha e quem sabe encontrar um maluco que navegue por aqui…

Calma! Eu vou dar um lide pra você entender um pouquinho por onde anda minha cabecinha perdida. Estou fazendo pós-graduação, no Celacc , sobre Gestão Cultural. Tudo é super embrionário, mas voltar ao clima da “facu” é renascer, sem dúvida nenhuma. Tenho duas disciplinas, uma que me ensina a pensar de forma prática ( Eventos, com Mariangela Haswani) e outra que me permite viajar pelas teorias da cultura.

O que é cultura?, eis a questão!
Essa é a nossa trajetória. Tentar definir ideologia, hegemonia, relações de poderes, consenso, cotidiano e por aí vai. Ainda não consegui ler nenhum livro inteiro, mas as fontes vão desde Platão, Aristotéles até Bourdieu, John Thompson e Muniz Sodré. Confesso que ouvir fragmentos das teorias desses caras é mais compreensível que fazer terapia em grupo. A sensação é de que todos falam a mesma coisa, mas os teóricos são mais claros do que os rituais das Mulheres que Correm com os Lobos.

O tema é simples: CULTURA. Compreendê-lo, entretanto, requer sair do difícil umbigo de ”olhar para si mesmo”, passar pelo outro e exige uma percepção do todo. E haja resistência de classe média!!! Confesso que antes de ouvir tais teorias, estava justamente na busca de pertencer a algum grupo econômico em função das leituras de Clarissa Estes - cheguei até imprimir relatórios do IBGE para tentar me encaixar na infinita classe média brasileira. Nos dias de hoje, talvez, seja quase impossível se encaixar  de acordo com aquilo que consumimos. Responda-me: quem hoje não tem geladeira, telefone, TV, celular e carro dentro de casa? Ok. Isso é tema para outro post.

Mas percebi que a trajetória humana passa mesmo pela Grana, Educação e Reputação. Essa triologia é um pouco do que restou da teoria de Bourdieu. A gente até aprende que por aqui, no Brasil, a matriz é muito mais complexa. Ou seja,  não adianta tentar imitar a trajetória de estudo do norte-americano para conseguir um salário nas multinacionais e, consequentemente, ter também o tal capital simbólico. Exemplos não faltam de trajetórias diversas que atingem o pico do capital simbólico e passa pelas tradições futebolísticas até as religiosas como camdomblé e ainda vale citar as peculiaridades regionais e as periferias das megacidades. Haja post pra pensar alto sobre tudo isso, mas o que me traz aqui ainda é o que me move pessoalmente: autonomia!!!!

Explico: Viver na marginalidade das redações, ser obrigada a voltar pelo dinheiro e,  AGORA ( depois de cinco anos de luta) ter conquistado uma certa autonomia do meu tempo (com quatro dias de home office e uma estabilidade financeira ,que ainda me encaixa no “infinito” grupo que consome gasolina, tv paga, celular pré-pago e banda larga, sem deixar de ter dívida com cheque especial) me levou a ouvir apenas a relação da autonomia na sala de aula.

O lance é simples e óbvio: no mundo das trocas do capitalismo, você vende seu tempo pelo salário e passa 90% da sua vida cumprindo uma tarefa demandada pelo outro, sem escolha, sem ruptura, quase alienante.  Ou seja, as escolhas acontecem não a partir daquilo que você quer fazer, mas daquelas que são possíveis agora.

Diante deste contexto fragmentado e confuso, a idéia é pensar como se forma o campo simbólico da blogosfera. Ou seja, para ter uma reputação diante do seu público, quais são as estratégias necessárias para sua valorização simbólica? É fato que quem tem reputação (capital simbólico) na blogosfera nem sempre tem money. Motivo? Apesar da reputação gerar audiência, alguns fatores podem impedir que o seu capital simbólico gere capital econômico: seu público, sua competência técnica ou sua “capacidade” de fazer negócio. Conhecimento também não é garantia de capital simbólico. Blogs muito cultos podem até ter uma boa reputação, mas nem sempre tem uma quantidade considerável de audiência. E ainda tem os famosos que continuam ainda mais famosos na blogosfera. Não é tão simples assim, mas pensar as trajetórias a partir da teoria de Bourdieu na prática da blogosfera parece que não rola. Talvez, haja motivo para mergulhar na brincadeira. E, aí, alguém arrisca por onde começar?

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12 respostas Até agora ↓

  • Orlando G DaSilva // Julho 5, 2009 às 2:15 pm | Responder

    Ceila,
    parabéns pelas novas atividades. Acho fundamental quando gente como você que está batalhando algo na “real” vai encarar a academia. O movimento contrário também seria muito bom, mas, acho que os acadêmicos são muito rechaçados pelos práticos, e isto cria um mecanismo de defesas que só atrasa nossas boas interações.

    Atualmente ando pensando a questão de estudar a blogosfera quando já se fala da morte da blogosfera. Tudo muito rápido, tudo muito fugaz, tudo muito, muito tudo que não dá tempo de apreender. Ufa. O twitter é a brincadeira da moda de quem está “matando” a blogosfera. hehe

    Mas, voltando à sua pergunta. É interessante revelar uma peculiaridade desse tipo de pergunta, só isso, só para cumprir minha parte “mídia”, já que os blogs nos permitem, para hackear a teu pensamento, para por uma barreira de salto, para quebrar uma linearidade, para criar uma anomala genética no teu texto .

    Perguntas deste tipo, por si só, já delimitam um monte de escolhas e crenças.
    Primeiro, você “aceita”, “assimila”, “interioriza”,”intrumentaliza-se”, com a leitura de Bourdieu, da existência de tais coisas chamadas de “campo simbólico” “capital simbólico”. Mas sente que estas coisas não dão conta de sua realidade.

    Sim, as “realidades” são sempre muito mais complexas que qualquer discurso teórico. Porque teoria é recorte, escolhas. Olha-se para algumas coisas e deixa-se muitas outras de fora.

    Talvez aí tenhamos uma prática interessante. Assunto: Autonomia do blogueiro. É isso?

    Do que especificamente Bourdieu não dá conta? Por que? Quem tem oferecido olhares sobre essas coisas?
    Se blogar for uma atividade que possa ser relacionada a “trabalho”. O que é um trabalho?
    Existe “autonomia” para o trabalhador? Que tipo de autonomia, que níveis de autonomia?

    O que fatalmente vai levar a questões de natureza, também. O que é autonomia?
    E talvez chegemos a categorias de autonomia absoluta (que eu vejo como impossível) e autonomia relativa.

    Acho que só isso aí já dá uma duas ou três dissertações mais algumas teses de doutorado.

    Vou parar por aqui. Só para a gente ir de pouquinho em pouquinho.

    Abração

    • ceilasantos // Julho 6, 2009 às 4:13 pm | Responder

      Orlando, que delícia ler tudo isso!!! É tão gratificante fazer um post depois desse longo abandono e ter um comentário assim como seu. OBRIGADA!
      Autonomia, talvez, seja uma palavra descartada do dicionário em breve porque ela parece quase utópica nos dias de hoje, se é que algum dia ela foi inteira. Mas Autonomia do blogueiro é muito mais interessante viajar que analisar as estratégias do capital simbólico do blogueiro… Valeu muito a dica… fiquei até com vontade de blogar sobre isso…E qual recorte vc acha válido olhar de forma teórica para mergulhar na autonomia do blogueiro?

      • Orlando G DaSilva // Julho 6, 2009 às 5:50 pm

        Que bom que te fez bem Ceila. Fico feliz.

        Para a sua pergunta, insisto nas minhas iniciais:

        Do que especificamente Bourdieu não dá conta? Por que? Quem tem oferecido olhares sobre essas coisas?
        Se blogar for uma atividade que possa ser relacionada a “trabalho”. O que é um trabalho?
        Existe “autonomia” para o trabalhador? Que tipo de autonomia, que níveis de autonomia?

        O que fatalmente vai levar a questões de natureza, também. O que é autonomia?
        E talvez chegemos a categorias de autonomia absoluta (que eu vejo como impossível) e autonomia relativa.

  • barraponto // Julho 5, 2009 às 2:48 pm | Responder

    muito bom.
    mas lidar com o mundo pelos olhos do capital é um problema.
    reflete o que eu vi na campus party: a blogosfera é a terra da livre iniciativa do capital simbólico.
    mas peraí: a blogosfera (e o projeto da web como um todo) esta(va) ancorado no ideal de livre expressão. mas aí no limiar do sucesso desse plano, nós jogamos fora a liberdade em troca de moedas?

    • ceilasantos // Julho 6, 2009 às 4:19 pm | Responder

      Oi Barraponto, prazer em conhecê-lo e seja bem-vindo a este cantinho!

      A idéia é justamente analisar ao que o campo simbólico da blogosfera gera e resulta para quem o tem? E quais são os elementos utilizados pelo blogueiro para construir seu campo simbólico?
      Ou seja, será mesmo que existiu a intenção de ter uma livre expressão com a oferta de ferramentas gratuitas como blogs entre outras? E, supondo que existiu tal intenção, será que quem utilizou dessa ferramenta fez isso por esse interesse? Hummmmmm, o uso é tudo, não?

      Vamos viajando…

    • Orlando G DaSilva // Julho 6, 2009 às 5:47 pm | Responder

      Bicho, enquanto puderem ser trabalhadas necessidades e desejos no sujeito a libertade inexistirá.

  • Silvia // Julho 6, 2009 às 12:10 pm | Responder

    Acho superinteressante essa sua proposta. Mas não sou muito otimista, não. Capital simbólico é bacana, mas como vc mesma diz, não traz capital econômico… esse é o problema. Bom ver post novo por aqui!! Bjs

    • ceilasantos // Julho 6, 2009 às 4:21 pm | Responder

      Oi Silvia, querida, saudade e obrigada pelo incentivo de continuar blogando… Será mesmo que o fato de o capital simbólico não gerar capital econômico é um problema? E já que ele não gera dinheiro para maioria, o que ele gera então? quais são os novos capitais que movem as pessoas a utilizarem a web? acho que dá pano pra manga viajar numa tese assim, mas ainda não tenho idéia de quantas delas já rolaram por aqui e pelo mundo.
      bjkas e obrigada pela visita!

  • ceilasantos // Julho 22, 2009 às 1:07 am | Responder

    Orlando, querido, obrigada pela generosidade e paciência. Vc me deu a oportunidade de ler um livrinho que gerou novo post…e começou a abrir um tiquinho os olhos, valeu!!!! Valeu, muito. obrigada de coração!

  • Teoria da Recepção, Stuart Hall « Mídia Social // Agosto 13, 2009 às 7:24 am | Responder

    [...] e Mediações Culturais“, que trata-se do meu primeiro “trabalhinho’ em grupo lá no curso Gestão Cultural. Eu passei os olhos no texto, depois reli a primeira parte e fiz um resuminho no google docs. [...]

  • ceilasantos // Julho 6, 2009 às 6:35 pm | Responder

    No sei se teria respostas para as perguntas que colocam, mas vamos l: Do que especificamente Bourdieu no d conta? Acho que Bourdieu as trajetrias colocadas por ele no seguem a mesma dinmica quando aplicadas na internet. O Capital simblico no reverte em capital econmico, mas em outros capitais. quais so eles??? acho que isso novo e pode ser estudado.

    Por que? porque a blogosfera uma ferramenta que permite a automao das relaes. logo, olhar para capital simblico neste novo ambiente deve trazer novas estratgias para construo do capital simblico.

    A teoria de bourdieu j no era suficiente no brasil quando a gente analisa situaes peculiares como os capitais simblicos da cidade do interior, da comunidade de samba, etc…Ou seja, aquele dono da frmacia que tem um capital simblico na cidadezinha do interior e influencia a opinio de todos, nem sempre rico ou tem estudos. ele, s vezes, tem uma reputao e formao de opinio pelo status dele na cidade, pelo carisma e tambm pelo papel que assumiu dentro da comunidad, enfim, tem suas peculiaridades que so diferentes das peculiaridades criadas pelo blogueiro que tem capital simblico para pblico dele. Isso j foi analise na rea cultural, mas ainda no tenho conhecimento dessa anlise no ambiente virtual, que muda muito. Dois motivos bsicos, s pra citar alguns: o pblico do blogueiro com reputao fragmentado, nem sempre representa uma comunidade e, detalhe, virtual. Quem tem oferecido olhares sobre essas coisas? no sei. justamente isso que estou procurando agora

    Se blogar for uma atividade que possa ser relacionada a trabalho. O que um trabalho? acho que blogar pode ser uma atividade de trabalho desde que haja troca do servio pelo dinheiro, no? Existe autonomia para o trabalhador? no. a acho que o foco seria relembrar marx e no conheo nada dele. nunca li marx, mas pode ser uma boa razo para tentar l-lo. Que tipo de autonomia, que nveis de autonomia?

  • Orlando G DaSilva // Julho 6, 2009 às 6:59 pm | Responder

    Opa Ceila. Bacana. Acho que as perguntas estão cumprindo seu papel.
    A idéia não é ter as respostas é buscar as respostas.
    Tô na ideia de que o caminho percorrido levará a algum lugar. E este lugar não é algo que você já conheça hoje.

    Vamos lá para aquela filosofia baratas de botequim: “Se você já sabe onde é o final do caminho e o que vai encontar, então o caminho não é importante. Se você não sabe onde é o final, nem o que pode achar, então todo o caminho é importante”.

    Tô na torcida

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