Conversas sobre Mestrado em Comunicação III

Agosto 28, 2009 · 10 Comentários

Hoje finalizo a série Conversas deste mês com as respostas do Francisco Madureira, gerente de projetos do UOL. Mas abro o blog para todos para começarmos a falar sobre Mestrado em Comunicação. Aidéia é propor conversas sobre a busca pelo Mestrado sob a perspectivia de um profissional de redação. Ou seja, aquele que desconhece o mundo acadêmico. Não há dúvida de que o primeiro passo é pesquisar, pesquisar e pesquisar os lattes dos doutorandos e mestrandos. São eles quem vão mostrar os caminhos para quem ainda não tem idéia do que é lattes, Linha de Pesquisa, objeto, sujeito e Metodologias….

Só cheguei no primeiro passo depois de ouvir muitooooooooooooooooo pessoas que já fizeram o Mestrado. E, por isso, resolvi replicar seis perguntinhas para amigos que admiro e sabia que iriam responder minha demanda. O Madureira é um dos primeiros profissionais que conheci na minha fase virtual e conectada. Ou seja, não o conhecia pessoalmente até o dia em que ele aceitou o convite para participar do NewsCamp. Eu trabalhei como frila para ele uma única vez, mas as trocas de emails foram suficiente para uma boa sinergia. Motivo? Filhos e internet. Ou seria, internet e filhos…Eu gosto muito da analogia racional Clico, logo existo! , apesar de ter criado nomes completamente malucos para minha própria identidade como Freelancer, o profissional que rala e Mídia Social (tão criticado pelos teóricos e amigos como Marmota).

Eu não conheço muito Madureira para ter julgamentos e elogios como fiz com Borges e Cruz, mas uma atitude que eu admiro e considero rara nas faltas de tempos que temos hoje é alguém te dar feedback. Madureira sempre retornou às minhas demandas malucas de querer mudar o mundo através de um clique. Prova disso são as respostas abaixo. Outra acaracterística que percebo nele é que Madureira também gosta do que faz, seja na USP ou no UOL. E isso, pra mim, é básico na vida. Tenho horror a pessoas que não priorizam a paixão…, mas eu sempre as tolero. Afinal, a maioria ainda trabalha só pelo salário. Com vocês, Francisco Madureira:

Foram 75 páginas de suor e lágrimas… mas valeu a pena! =)

1- Como surgiu a idéia de fazer mestrado na sua vida?
Surgiu da necessidade que sinto de pensar no que eu faço, sem fazer simplesmente por fazer. E também porque adoro dar aula, é algo genético talvez —tenho avô e pai professores universitários. Como é praticamente um requisito, comecei a ir atrás. Mas a ausência de título não me impediu de já ter sentido o gostinho. Já ministrei cursos de jornalismo online no Mackenzie entre 2006 e 2007. Foi uma fase corrida, mas ótima.
 
2- Você já tinha um objeto de pesquisa para sua dissertação antes de encontrar seu orientador?
Sim, sobre jornalismo colaborativo. Na verdade, foi a colaboração que resgatou meu interesse no jornalismo, depois de encontrar redações mais preocupadas com o consumidor que o cidadão, com a audiência que com o compromisso público e social da profissão. E olha que só trabalhei em lugares que admiro —quando faço esta crítica, não é aos veículos onde trabalhei, mas ao que se tornou o jornalismo como um todo, especialmente em nosso país.

3- O que foi novidade para você em relação ao mundo acadêmico. Ou seja, o que você não tinha idéia de que é assim ou assado?
Tem um ditato que diz: “O mundo é uma grande bunda, e precisa de muito papel para se limpar”. Eis o que senti sobre o mundo acadêmico —uma necessidade impressionante de papéis, comprovações, burocracia. Sinto que isso emperra muitas das iniciativas legais que o Brasil, esse tal país criativo, poderia empreender no campo da educação. Mas aí vem o Lattes, currículo acadêmico obrigatório e que vale mais pela quantidade que pela qualidade, entre outras burocracias burras, como, por exemplo, a ausência de áreas multidisciplinares em grades curriculares do MEC e das próprias universidades, que continuam compartimentando o conhecimento em uma era de internet e redes que se cruzam e influenciam.

4- Como escolheu seu orientador para o mestrado?
Trabalho com a Beth Saad, do grupo de pesquisas COM+, da ECA/USP. É o único grupo de trabalho da Escola de Comunicações e Artes que realmente trabalha com a internet na vida real, sem levar o debate intelectual para o mero exercício teórico. Escolhi a Beth Saad por intermédio de uma colega de Mackenzie à época, a Daniela Ramos, que já trabalhava com ela no doutorado. A Beth é hoje a única profissional do Departamento de Jornalismo e Editoração capaz de conduzir um trabalho sério sobre internet e novas mídias. Há muita gente na ECA com qualificação teórica, mas sem experiência alguma no mercado de trabalho, e isso é fundamental em um campo tão mutante como a web.

5- Seu objetivo com mestrado é dar aula, ou não? Aproveitando, qual finalidade de um mestrado. Afinal, pra que serve um mestrado para um jornalista?
Certamente, mas não apenas dar aula. Honestamente, em meio a tanto debate sobre o diploma, acredito que saí da faculdade sem saber muita coisa sobre jornalismo. Na ânsia por dar uma formação generalista, com disciplinas como filosofia e sociologia, e por direcionar você a determinado campo do jornalismo (impresso, rádio, tv etc.), acabam por deixar de te ensinar o básico. Senti muita falta de estudar COMUNICAÇÃO na graduação. Acho que acabei voltando à universidade para ler e descobrir coisas que me faltaram. Não sei se é o caso da maioria das universidades no país, mas a USP em particular tem um currículo muito anacrônico. Para ter uma ideia, tive que buscar Teoria da Comunicação numa disciplina optativa oferecida por outro departamento que não o de Jornalismo —algo que é fundamental para um comunicador.

6- Qual é a linha de pesquisa que escolheu? Pode falar um pouquinho sobre essa experiência. Podemos ver sua dissertação em qual endereço eletrônico ou ela não está disponível?
Estou no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da ECA/USP, mais especificamente na área de Interfaces Sociais da Mídia. Minha dissertação investiga o engajamento do público no jornalismo participativo dos grandes portais brasileiros —acabei escolhendo este recorte por minha experiência pessoal como profissional de mídia, e também por julgar que os grandes portais, apesar de normalmente não atenderem nichos, têm maior alcance de audiência e, talvez, maior possibilidade de levar uma nova forma de fazer jornalismo ao grande público. Porém, o estudo dos nichos certamente seria enriquecedor, e eventualmente posso tomar este rumo em uma pesquisa de doutorado —apesar de sentir vontade é de empreender nesta área para testar alguns ideais, assim como minha entrevistadora… ;-)
 
Minha dissertação deve ficar pronta até março de 2010. Ainda não sei se posso/devo publicar meu relatório de qualificação, mas você pode esperar novidades em breve em meu blog, em www.clicologoexisto.com.br.
 
É isso minha cara! Espero ter ajudado!

Ajudou e muito, meu caro! Obrigada pela colaboração. Espero que esses posts sirvam para alguém que esteja perdido aí na blogosfera em busca do começo da linha do novelo, saca?

Só pra deixar registrado, como manda a boa automação, eu fiz as mesmas perguntas a três amigos (veja posts abaixo) com perfis um pouco diferentes, porém, com algumas características que considero importante: todos têm o espirito de colaboração e entedem que o saber só é válido quando é para e entre todos. Por isso, faça sua parte também! Comente!

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10 respostas Até agora ↓

  • André Marmota // Agosto 29, 2009 às 12:32 am | Responder

    Vou ler com calma as três entrevistas… Ah, antes que eu me esqueça, estou revendo o conceito negativo que tenho do termo “mídia social”. Qualquer hora falo mais sobre isso. :)

  • Rodrigo Gonzatto // Setembro 2, 2009 às 4:21 pm | Responder

    Muito interessante estes textos sobre mestrado em comunicação que tem publicado aqui. Obrigado por compartilha-los.

  • ceilasantos // Setembro 2, 2009 às 4:39 pm | Responder

    Oba! marmota é bom saber que está revendo conceitos…Acho que esta fase de reflexão merece outro café, que tal?

    Oi Rodrigo, seja bem-vindo! e muito obrigada pelo comentário. O bom do compartilhar é que tal troca sempre resulta em conhecer novas pessoas. E gente é tudo neste mundo, né!

  • Claudio // Setembro 3, 2009 às 8:50 pm | Responder

    Muito bom Ceila, especialmente está entrevista com o Madureira. Aqui no MT temos uma linha totalmente interdisciplinar. Cultura Contemporânea mistura artes, comunicação, antropologia e sociologia, diga-se de passagem temos professor de física, músico contemporâneo, explorando esta opção de mestrado justamente por receber linhas de pesquisa diversificadas.

    Enquanto acharem que o conhecimento tem fronteira entre as disciplinas vamos penar para avançar. Aliás houve uma proposta inovadora na USP sobre o curso de Humanidades, você sabe como anda ? De repente o Chico pode nos dizer né!?

    abraço,

  • Sandra // Outubro 6, 2009 às 4:52 pm | Responder

    Puts, obrigada por compartilhar suas angústias, busca, reflexões sobre o caminho para o Mestrado. A mudança de rumo do ‘mercado’ para o ‘campo acadêmico’ é árdua. Estou na batalha desta trilha e as entrevistas me ajudaram muito. E as dicas de leitura são bem bacanas. grande abraço

  • ceila santos // Outubro 17, 2009 às 12:29 am | Responder

    Claudio, eu quero ir para MT!!!!…eu não sei onde nem como anda essa conversa na USP, mas minha sensação é de que aqui, em sampa, tudo ainda é feito dentro das caixinhas. snifff

    Oi sandra, fico feliz em poder ajudar de alguma forma. quando escrever sobre sua trajetória, manda link pra cá, please!
    bjkas e obrigada a todos pelo tempo dedicado a comentar por aqui!

  • Sandra // Outubro 17, 2009 às 2:30 am | Responder

    Gente,
    As caixinhas, devidamente etiquetadas, estão em todos os lugares. As etiquetas são tão heterogêneas que lembro de uma fala do professor Muniz Sodré da ECO/UFRJ quanto às barreiras nos cursos de pós-graduação no Brasil. Ele citou o exemplo de um doutor em comunicação e que está fazendo pós-doc, que não consegue passar nas provas para docente em universidades federais – tentou UFF e UFRJ e foi barrado na entrevista, na Fiocruz ele tirou o 2º lugar (o primeiro era de funcionário), ele não foi chamado, e sim o 3º colocado. Defeito do sujeito que já viveu fora do país e fala 3 idiomas, como diz o prof. Sodré – “Esse rapaz, muito inteligente, super capacitado, jornalista, pós-doc… é ser ‘Negrão’. Eu disse a ele para denunciar, porque é caso explícito de racismo, a vaga era dele. Mas, ele disse que não iria tentar outro concurso. É um absurdo, desperdício de talentos. A academia faz isso, seus grupos.” Aí,minha amiga, é de gelar. Mas não desistir.

  • ceila santos // Outubro 17, 2009 às 2:56 am | Responder

    Putz, Sandra, que vergonhoso isso ainda acontecer no Brasil. Dá raiva, ódio, mas acho que, além de não desisitir, é importante gritar, processar…´hummmmmm, pensando bem, o grito na hora errada pode resultar só em barulho, né. as vezes, o silêncio é muito mais eficiente para vencer a luta.

    PS: meu sonho é conhecer e ouvir Muniz sodré. Estou lendo reinventando @ cultura e estou impressionada com nosso gênio brasileiro. muito bom!!! em breve pretendo postar sobre livro… espero te encontrar por aqui pra gente conversar sobre livro.bjkas e obrigada por compartilhar a informação!

  • Sandra // Outubro 17, 2009 às 3:35 am | Responder

    Li para a prova de mestrado da ECO/UFRJ o Antropológica do Espelho em que ele lança uma teoria sobre o bios midiático. O livro é pesado, na terceira leitura fica apetitoso e inesquecível. Este que você mencionou não tive ainda a oportunidade de ler. grande abraço

  • Caminho para o Mestrado continua… « // Dezembro 17, 2009 às 6:01 pm | Responder

    [...] que é isso até agora. ( Vale ler os posts Conversas sobre Mestrados em Comunicação) PS: Diante de tantas observações, divagações e curvas, concluo que não sou um bom exemplo para [...]

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