Quando VOCÊ se vende

Pode ser só impressão minha. Faz séculos (desde 2008) que não acompanho os probloggers. Mas o fato é que, apesar da proliferação de especialistas em mídias sociais, nada mudou. A sensação é de que as tais agências digitais, e especializadas, só fazem o mesmo. E, detalhe: um mesmo bem mais velho que a internet. Eu me refiro às empresas que vendem audiência aos seus clientes, através do “relacionamento e know how” com os probloggers e os outros.

É sensação minha ou elas continuam só comprando conteúdo e dando jabá? Ou seja, adotando práticas antigas do marketing e do jornalismo para tratar de novos personagens. Calma! Antes de você ficar revoltadinho (a), eu não estou aqui pra dizer que é feio ou errado o que fazem. Só alerto que não servem para todos, principalmente, aos que nem sabem o que e problogger. Uma pena que os tais especialistas não tenham criatividade suficiente para inovar ou não tenham adotado convenções comerciais mais aceitas como venda de espaços publicitários no formato de publicidade ou patrocínio.

Uma pena, mas feio mesmo é a falta de reação. Não sei se algum problogger reclama desses absurdos. Se sim, é preciso gritar mais alto. Senão, pergunto: você tem idéia do que faz quando se vende?

Pergunto isso porque imagino que você ao fazer o tal publieditorial, por dezenas ou centenas de reais, imagina que seja um ato tão pessoal que nem pensa no bem comum. A decisão parece simples: a marca tem credibilidade, o produto é bom, tem a ver com meu público, então, ok: dá lhe post! Se for jaba, então, como não rola dinheiro, a consciência fica ainda mais tranquila.

Não precisa parar, respirar e pensar que você está vendendo a sua opinião quando escreve sobre um produto. Se você parar, respirar e pensar, pode ate concluir o obvio: todos escrevem sobre o consumo, inclusive você: quantas vezes já falou de produtos ou serviços no seu blog sem ter ganhado nenhum tostão? Hello!!

Parece que dá pra separar, mas não dá. Essa prática de comprar conteúdo é velha e bastante diferente de um anúncio. Quem vive de jornalismo há muito tempo sabe o quanto essa prática, historicamente, foi feita para enganar o outro. Inclusive os próprios jornalistas. Eu, por exemplo, não tenho idéia de quantas vezes fui usada para escrever matéria encomendada onde alguém ganhava milhares de reais, enquanto eu achava que estava fazendo o meu trabalho.

Tudo bem, você pode se justificar que, pelo menos, no publieditorial, o blogueiro não é enganado pelos pauteiros. Verdade, mas alguém continua ganhando muito mais que você e, detalhe, você nem percebe essa exploração. Conheço gente que ainda enxerga nessa relação uma vantagem. Será pura alienação ou  falta de valor mesmo?

Vale ressaltar que, no jornalismo, existem os tais editoriais corporativos, cuja encomenda é a mais clara o possível, mas ás vezes, você nem precisa assinar a matéria (uhu!!). Você também vai ganhar migalhas, mas a diferença é que o dono daquele papel ou daquela URL não é você. E isso conta muito. Na verdade, muda tudo.

Nenhum blogueiro consegue sobreviver com as migalhas do publieditorial a não ser que seu blog seja um depositório de publieditoriais, o que já existe e muito. Imagino que não seja seu caso. Portanto, pergunto: já parou para pensar e respirar a serviço do quê ganha migalhas? Por acaso, consegue relacionar seu ato tão pessoal ao movimento de oligopólios globais e desigualdade social? Não?

Pare, respire, pense e responda: quando você se vende, quanto ganha o menininho que te convence a escrever um publieditorial, o CARA que gerencia os menininhos, o diretor que trabalha com o CARA, o dono da agência e…o cliente? Todos eles ganham, no mínimo, dinheiro e reputação. Enquanto você ganha migalhas para vender a sua opinião. Detalhe: uma opinião que vende consumo.

Agora, responda-me: porquê você não luta para discernir a publicidade do seu conteúdo? Um anúncio te dará as mesmas migalhas, mas pelo menos você não terá sua opinião exposta. Ou melhor, vendida.

E mais: as agências, enfim, farão o mesmo que no passado. Mas, pelo menos, vão adotar uma prática mais comum do mercado, e mais resolvida que jabá e venda de conteúdo. Vão ter de colocar anúncio no seu blog.

PS: pra fechar, vale lembrar que jabá pra jornalista não vem com recadinho: escreva sobre o produto. Para blogueiro, vem, e detalhe: muitas vezes, subentendido. Uma vergonha!

Sobre ceilasantos

Profissional da Colaborativa Produções Culturais
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