O que virou da Blogosfera profissional?

Em 2008, Gisele Honscha fez uma pesquisa com 52 dos TOP 100 do BlogBlogs  com objetivo de identificar a profissionalização dos blogs brasileiros. Resultado: a profissionalização era apenas uma sugestão e blogueiro profissional poderia ser quem ganhava dinheiro com a veiculação de publicidade assim como quem buscava reputação. O fato é que, naquela época, somente 10 dos 55 tops da blogosfera nacional se consideravam blogueiros profissionais. A sensação é de que até hoje a identidade é nebulosa. Afinal, o que é ser problogger?

A pesquisadora não aprofundou no histórico da publicidade (pena!), mas pincelou alguns fragmentos de quem foi atrás do passado. Entre as informações estão o primeiro contrato publicitário, em 1994, com a revista HotWired, da Wired Magazine; o primeiro blogueiro profissional no Brasil surgiu em 2003: um jornalista com cinco mil visitantes únicos, Nelito Fernandes, e uma renda de R$ 1570,17. Dois anos depois surgia o tecnólogo Carlos Cardoso que em novembro de 2006 publicou sua renda no seu blog, seguido pelo blog Andersauro que em 2008 diz que ganhou R$ 6.492,90 sinalizando a parceria existente entre o Mercado Livre e os probloggers. Dois destaques válidos: audiências citadas acima de 4 mil visitas/dia e renda financeira para tecnólogos e jornalistas. Detalhe: há oito anos.

Vale lembrar-se da adolescência da blogosfera, citada nas pesquisas anteriores, diante da infância do profissionalismo blogueiro. Pitaco de quem viveu no meio do furacão das manchetes sobre macacos, monetização, celebridades, blogcamp e geladeiras, o indício de profissionalismo mesmo nascia em 2008. Ou seja, só há três anos.

Gisele ainda observou que perfil de problogger é gente da área de comunicação ou tecnologia. A maioria dos TOP100 era paulista, macho e jovem (20 a 29 anos – 47%) seguido de adultos (30 a 39 anos – 22%). Outra peculiaridade que definia os probloggers naquela época é domínio próprio. Ou seja, blogueiro de verdade mesmo não usa plataforma gratuita nem design dos outros. Parece até que pra virar blogueiro, a regra é ter custo de hospedagem e um bom logotipo. Assim muitas histórias tornam-se as mesmas e seguem o típico roteiro de celebridades: “eu comecei de brincadeira só pra pagar os custos do meu blog, mas aí…”

Aí a galera começou a ensinar, disseminar e incentivar os outros a se “profissionalizarem” para monetizar blogs. Por isso, talvez, o senso comum seja de que problogger é quem ganha dinheiro com blog. Gisele ensina que a publicidade é somente um dos meios para ganhar money com blogs. Outros seriam oferecer consultoria, prestação de serviço ou reputação de blogueiro que o coloca em cima do palco.

Aprendi que publicitários reconhecem muitas ações feitas na blogosfera. Entre elas estão propaganda, merchandising, patrocínio, relações públicas, branding. Mas, na prática, os blogs eram financiados por veiculação de banners e links patrocinados. O publieditorial já existia, mas a pesquisa não avalia quanto o post pago representava da renda do blogueiro. Outra novidade é que a escala do CPM não era o único critério da publicidade que também paga de acordo com o tempo de exibição do anúncio.

A leitura da pesquisa de Gisele foi válida por uma razão: a metodologia adotada e a experiência que teve nos camps da vida na tentativa de fazer uma conversa coletiva. Pra quem deseja pesquisar a blogosfera e adotou a etnografia como método vale bisbilhotá-la.  Minha sensação é de que a biografia foi focada nos hits americanos como Wikinomics, Freeconomics e Long Tail, o que contribui acreditar no potencial econômico da cultura participativa.

Foi justamente babando por quem profetizava esses autores ou gritavam contra qualquer tipo de controle ou hierarquia nos cantinhos dos camps que me tornei cega para os oligopólios midiáticos, para o desenvolvimento de software baseado no regime da escassez e para a tradição do controle acadêmico na produção de conteúdo. Vale a leitura de Augusto Campos da semana passada para trazer o outro lado da história, além de Muniz Sodré e Santaella. Fiquei curiosa pra saber o que está por trás do reinado de Lessig e conclui de novo que nicho ainda é bicho que não dá certo. Ética continua, pra mim, sendo a fonte principal de conhecimento para entender mídias sociais. Bom pro povo da academia.

Sobre ceilasantos

Profissional da Colaborativa Produções Culturais
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